O perigo dos lobos solitários

Por Rafael Gonçalves Fernandes

Criminólogo

Ao longo das últimas décadas, a figura do “lobo solitário” tem-se tornado objeto central nas discussões sobre segurança pública, terrorismo e violência extremista.

Os lobos solitários, são indivíduos que motivados por questões ideológicas, religiosas ou pessoais, representam uma ameaça crescente à vida em sociedade, através da prática de atos terroristas.

À semelhança dos grupos terroristas, estes indivíduos tentam perpetuar as suas atividades criminosas tendo como objetivo impor as suas ideologias, assim como espalhar o medo e o terror.

No entanto existe uma característica que distingue os lobos solitários dos demais terroristas. Pois, os lobos solitários atuam de forma individual, sem qualquer tipo de vínculo com as organizações terroristas e criminosas, mas que mesmo assim conseguem provocar grandes cenários de terror.

Esta individualidade e desconexão com as grandes organizações terroristas, promove uma das principais particularidades dos lobos solitários, nomeadamente a imprevisibilidade. Pelo facto de estes agirem isoladamente, a título pessoal e de forma autónoma, sem haver a necessidade de contacto com redes de apoio logístico. Algo que acaba por escapar do olhar atento das autoridades, o que facilita todo o processo de preparação de um ataque terrorista.

Se determinada organização terrorista estiver a executar o planeamento de um ataque, e quanto maior for essa organização, serão diversas pessoas a comunicar entre si os pormenores e detalhes da operação. É nessas comunicações e interações, que as autoridades policiais conseguem penetrar o plano e consequentemente trabalhar no sentido da sua extinção. Na ausência dessas comunicações, o lobo solitário consegue executar todo o planeamento sem que alguém tenha conhecimento do mesmo, pois realiza-o de forma solitária.

Trata-se de um fenômeno que desafia os métodos tradicionais de prevenção criminal, pois estes atuam fora das grandes estruturas organizadas que costumavam representar as principais ameaças à segurança pública.

Na maioria dos casos, os lobos solitários radicalizam-se no ambiente doméstico através do mundo digital, com o consumo de conteúdo extremista. Começando dessa forma, a criar uma bolha de pensamento extremista sobre determinada situação, o que o leva a cometer um atentado de forma a impor as suas ideologias, ou pôr fim às situações que o inquietam.

São vários os fatores que contribuem para o surgimento de um lobo solitário, nomeadamente o consumo sistemático de conteúdo extremista, isolamento social, sentimento de injustiça, fracasso pessoal, transtornos psicológicos, entre outros. Alguns casos de ataques armados realizados por alunos nas escolas dos Estados Unidos da América, revelam-se no final como um ajuste de contas ou vingança pelas injustiças vividas ou percecionadas.

De modo a promover a participação dos lobos solitários, o Estado Islâmico (grande organização terrorista), promovia na internet um manual sobre todos os passos necessários para a execução de um atentado terrorista, assim como todas as etapas para a construção de bombas caseiras para serem utilizadas nesses mesmos ataques. Um individuo com uma pré disposição extremista, ao ter acesso a esse tipo de manuais, pode começar a fomentar a sua participação terrorista, e findar com a realização de um atentado.

Apesar de estes sujeitos atuarem sozinhos, estes não surgem do nada. Muitas vezes são produtos de uma sociedade onde o diálogo é escasso, onde o ódio é alimentado pelas redes sociais, e onde o acesso a armas é fácil. Como tal, o combate ao lobo solitário exige uma resposta complexa e multidisciplinar, envolvendo políticas públicas de saúde mental, promoção da educação para a tolerância e respeito, assim como a monitorização de conteúdos extremistas. Em muitos casos, os lobos solitários representam as falhas sociais, e dão sinais prévios de uma potencial ameaça, como partilha de pensamentos violentos, comportamentos suspeitos e ameaças concretas. Não se deve fechar os olhos a este problema, até porque o silêncio é o terreno fértil para estes lobos crescerem.

Jornal O Desportivo

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