Opinião de Salvador de Sousa.
A Imagem Peregrina, após a passagem pela Europa e pela África, saiu de Lisboa no dia 24 de novembro de 1949 a caminho das terras asiáticas. Parou em Roma, sendo recebida, juntamente com toda a Sua comitiva, pelo Santo Padre, no Castelo Gandolfo, abençoando a Peregrinação pelo mundo.
Passou pelo Cairo, Iraque e Arábia, chegando, no dia 27, pelas 22h, a Bombaim. Um barco português transportou a Imagem de Nossa Senhora em direção a Goa onde foi rececionada, na manhã do dia 29, por uma enorme multidão com vivas, cânticos e aclamações, apanágio de todas as outras visitas, não faltando as inúmeras embarcações assinaladas por lindos enfeites e invocações à Virgem, além das autoridades religiosas, civis e militares.
Nossa Senhora foi colocada numa lancha para onde inúmeros amantes da Virgem afluíram para tocarem na Imagem. O cortejo fluvial começou a movimentar-se, sendo acompanhado, através das margens do rio Mandovi, por um número incontável de devotos a pé, de automóvel, de camionetas, de bicicletas… que cantavam, rezavam, louvando a Bendita Visitante.
Passou por Pangim ou Nova Goa, mas sempre com o objetivo de chegar à velha Goa, também denominada de S. Francisco Xavier de Goa que os portugueses dominaram, passando a ser, a partir de 1510, a capital da Índia Portuguesa e o centro da cristianização do Oriente com uma grande representação das ordens religiosas.
Uma grande pandemia de malária e cólera obrigou à fuga da população da cidade, no século XVII, sendo, mais tarde, a capital transferida para Pangim (Nova Goa), mas, devido às missões católicas, a população voltou a crescer e a velha localidade continuou a ser famosa pela sua história.
A Imagem Taumaturga foi retirada do barco na Velha Goa e colocada junto ao histórico arco dos Vice-Reis da Índia mandado construir pelo Vice-Rei, Fernando da Gama, em 1597, para comemorar o centenário da chegada à Índia do seu bisavô, Vasco da Gama. No dia 30 de novembro, a imagem seguiu para a Catedral onde foi celebrado pelo Senhor Patriarca um solene Pontifical e aonde afluíram, durante a noite, muitos milhares de fiéis.
No dia 1 de dezembro, num lindo recinto requintadamente ornamentado para honrar a Mãe do Céu, à volta de duas centenas de sacerdotes concelebraram e cerca de 20.000 pessoas abeiraram-se da Mesa Eucarística. O Bispo de Meliapor, orador no momento próprio da Missa, ficou comovido, a sua voz tornou-se trémula e embargada ao presenciar aquele momento inédito, a entrega daquela gente, o seu sentimentalismo, a sua afeição a Santa Maria de Portugal.
No dia 3 de dezembro, a Imagem Peregrina seguiu para a Igreja de Jesus onde se encontra o túmulo de S. Francisco Xavier, “o grande apóstolo do Oriente”, coincidindo com o dia da sua festa, partindo, ao entardecer, por terra, para a “ Nova Goa”, onde esteve até ao dia 5, visitando, a seguir, todos os concelhos, acompanhada, no tempo, sempre pelo Patriarca e pelos Bispos de Meliapor e de Poona.
A Virgem Caminheira, a partir do dia 12, fez a viagem de comboio para Belgaum e para outras localidades da Índia, verificando-se, segundo o nosso cronista destas viagens marianas, um zelo e uma empatia sem limites em todas as estações e locais por onde passou e parou a nossa Divinal Imagem. Passou, ainda, pelo Paquistão, Ceilão, voltando à Índia Portuguesa.
Foi uma viagem prodigiosa onde não faltaram sinais divinos com curas e outros fenómenos extraordinários que foram acontecendo. Em KumbaKonam, a imagem “foi tirada às escondidas, pois o povo não a queria deixar sair.” Um Hindu confessava a um sacerdote: «Deus concedeu um poder especial à Senhora de Fátima. Já não temos a menor dúvida.» Mais adiante, outros diziam: «Obrigado por nos terdes trazido Nossa Senhora. Esperamos d’Ela a paz para o mundo…»; «… nunca assisti a coisa tão bela e tão comovedora.»
Termino com a exclamação do Bispo em Dhaka, perante o espetáculo da multidão dos pagãos: «Isto é quase inacreditável!»
No dia 5 de agosto de 1950, a Imagem Peregrina regressa a Portugal, após dez meses de peregrinação por terras asiáticas.
Principal fonte destas crónicas: “Fátima Altar do Mundo”, 3 volumes, sob a direção literária do Dr. João Ameal da Academia Portuguesa da História…



