Texto de opinião de Jorge Eiras (coordenador da Iniciativa Liberal de Vila Verde)
A democracia não se pode transformar no espetáculo do povo.
Democracia S.A, o sistema político onde todos mandam… mas ninguém sabe bem em quê. Aqui, o cidadão é o acionista simbólico: tem direito a um voto de quatro em quatro anos e um recibo de indignação mensal.
A democracia, dizem, é o governo do povo. O problema é que o povo raramente aparece nas reuniões. O que aparece mesmo são os políticos — escultores de palavras, capazes de prometer o impossível com a convicção de quem já o cumpriu e que o povo é um privilegiado sem ainda nada ter recebido. São especialistas em transformar o “nunca mais” em “só mais um mandato” e o “estamos a ouvir o povo” em “estamos a fingir interesse enquanto vemos as sondagens”.
Na Democracia S.A., o jogo é simples: o eleitor queixa-se, o político finge surpresa, a oposição denuncia, e todos trocam de lugar na próxima legislatura. É o ciclo natural da flora participativa — uma espécie de ecossistema onde sobrevivem apenas os mais adaptáveis à arte da fundamentação habilidosa da escusa.
Os debates políticos não podem ser o reality show da razão: cada um fala mais alto que o outro para provar que tem razão, enquanto o público, armado com pipocas e sarcasmo, escolhe o seu favorito no sofá. A diferença é que no final o prémio em dinheiro, é apenas conversível em impostos.
Os partidos não podem funcionar como equipas de futebol: têm cores, claques e mascotes, e vivem de promessas gloriosas que acabam em empates técnicos. Há quem diga que o eleitorado é o verdadeiro árbitro, mas, curiosamente, o apito parece estar sempre nas mãos de quem tem o microfone.
Agora, a democracia moderna é digital: há mais discussões políticas no Twitter do que no parlamento. É a era em que o “like” funciona como prova de cidadania. O eleitor participa ativamente — partilha memes, escreve indignações em letras maiúsculas e declara “acabou-se a “brincadeira”… até ao próximo recreio.
E as jogadas políticas? Ah, essas são a alma do espetáculo. Há a jogada do “aliado temporário”, a do “inimigo conveniente”, e, claro, a clássica “mudança de princípios por razões estratégicas”. É como o xadrez, só que com mais egos e sem lógica.
Os políticos são artistas do improviso. Um escândalo? Ora é apenas “uma interpretação errada”. Uma promessa esquecida? “Uma prioridade reavaliada.” Uma contradição evidente? “Um contexto diferente.” São mágicos: conseguem fazem desaparecer a coerência diante dos nossos olhos, e ainda recebemos aplausos por acreditarmos.
Mas sejamos justos — a culpa não é só dos políticos. A democracia é uma coreografia coletiva: o povo reclama do espetáculo, mas continua a comprar bilhetes. O eleitor desiludido é como o fã de uma telenovela que jura que nunca mais vê… até ao próximo episódio.
Mas talvez a democracia funcione exatamente porque é imperfeita. Porque permite rir, criticar e reclamar — tudo ao mesmo tempo. É o único regime onde podemos dizer que tudo está mal.… sem que ninguém nos bata à nossa porta a meio da noite.
No fim, a democracia é um pouco como aquele amigo que chega sempre atrasado, mas ainda assim aparece. É lenta, contraditória e um tanto desastrada — mas, convenhamos, as alternativas costumam ser bem piores.
Portanto, da próxima vez que fores votar, lembra-te: não estás apenas a escolher quem vai governar, podes estar apenas a escolher o elenco da próxima temporada. E quando encontrares os atores na rua, não batas palmas, faz-lhe perguntas!
Ao bom espectador, no final, resta-lhe torcer para que o próximo guião venha com menos drama, mais obra e mais coerência.



