O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) lançou esta segunda-feira uma campanha internacional de angariação de fundos para ajudar milhões de pessoas deslocadas que se preparam para enfrentar o inverno sem apoio suficiente. A queda do financiamento humanitário está a deixar famílias inteiras sem condições mínimas para resistir ao frio extremo.
“Com as temperaturas a descer em várias regiões, milhões de refugiados e deslocados estão a entrar num inverno rigoroso com muito menos assistência”, alertou Dominique Hyde, diretora de Relações Externas do ACNUR, após regressar de missões na Síria e na Jordânia. Segundo disse, muitas famílias não terão aquecimento, cobertores ou até um teto devidamente isolado.
A agência pretende reunir cerca de 35 milhões de dólares – perto de 30 milhões de euros – destinados a reparar casas destruídas, assegurar aquecimento, distribuir roupa de inverno e medicamentos. A mensagem é direta: pequenas contribuições individuais podem significar a diferença entre suportar o frio ou cair numa emergência humanitária ainda mais grave.
Síria, Afeganistão e Ucrânia entre os cenários mais críticos
No Médio Oriente, a situação permanece frágil. Muitos dos sírios que regressaram ao país após a queda do regime de Bashar al-Assad encontraram cidades e aldeias devastadas por mais de uma década de combates. O ACNUR calcula que cerca de 750 mil pessoas podem ficar sem cobertores, colchões ou roupa quente neste inverno.
No Afeganistão, onde nove em cada dez pessoas vivem na pobreza, o cenário torna-se mais duro com o retorno de mais de 2,2 milhões de afegãos expulsos do Paquistão e do Irão este ano. Muitos chegam sem bens e enfrentam temperaturas negativas num país ainda abalado por terremotos recentes e um sistema social profundamente fragilizado.
Na Ucrânia, trata-se já do quarto inverno desde o início da guerra em larga escala. Com ataques a infraestruturas energéticas e cidades inteiras sob pressão constante, as temperaturas podem cair para os -20°C, deixando civis dependentes de soluções improvisadas para aquecer casas ou abrigos.
Queda no financiamento agrava crise
A redução do financiamento internacional à ajuda humanitária intensificou-se ao longo de 2025. Entre os cortes mais significativos está a decisão da administração norte-americana, liderada por Donald Trump, de reduzir drasticamente o orçamento da USAID. Segundo um estudo publicado na revista The Lancet, as consequências poderão traduzir-se em mais de 14 milhões de mortes prematuras até 2030.
Para o ACNUR, o tempo está a esgotar-se.
“As famílias deslocadas não deveriam enfrentar o inverno sozinhas. Estamos no terreno, mas precisamos de mais meios”, avisou Dominique Hyde.
A campanha agora lançada procura mobilizar doadores privados e cidadãos, numa altura em que os governos têm vindo a recuar no financiamento internacional. A agência insiste que cada contribuição, por pequena que seja, pode impedir que o inverno se transforme numa tragédia silenciosa.



