Texto de Luís Sousa (Médico)
Desde a pandemia que o vírus SARSCoV-2 sofreu mutações substanciais que, a par da vacinação e da imunidade induzida pelas infeções repetidas na população, contribuíram para atenuar a severidade deste vírus que, pelos mais diversos motivos, não nos traz boas memórias. Atualmente, a pergunta que encabeça o título deste artigo é-me colocada com frequência nas minhas consultas. Alguns utentes, apesar de não terem muitas hesitações quanto à mais-valia de se vacinarem contra a gripe, manifestam algumas renitências no que toca à vacina contra a Covid-19.
A minha resposta a esta questão é clara: Os doentes que mais beneficiam com a vacinação são os adultos com idade igual ou superior a 60 anos, os portadores de doenças crónicas, pessoas imunodeprimidas, doentes oncológicos, residentes em lares e profissionais de saúde. No meu gabinete de trabalho tenho expostas as últimas indicações da Direção-Geral da Saúde sobre este assunto. Desta forma, sustento e fundamento a minha opinião e aproveito para, oportunisticamente, contribuir para a literacia em saúde dos meus utentes, esclarecendo-os e contribuindo para que possam tomar decisões de forma informada e consciente.
Se o mundo acabasse hoje e tivesse de listar as maiores descobertas da humanidade, diria que a vacinação figuraria no top 5. Apesar disso, os tempos não são fáceis no que respeita à aceitação do seu papel como promotor da saúde pública. Cada vez mais, proliferam, nas redes sociais, aspirantes a cientistas, com habilitações duvidosas, que difundem as mais diversas teorias da conspiração contra a vacinação. Por estes dias, houve até quem dissesse que o AVC do Nuno Markl foi causado pelas vacinas!
Em outubro deste ano foi publicado um estudo na New England Journal of Medicine cujo objetivo foi avaliar a eficácia da vacina contra a covid-19 na redução dos eventos clínicos relevantes como idas ao serviço de urgência, hospitalizações e mortes associadas à covid-19. Este estudo, que acompanhou uma população de mais 295.971 pessoas, comparando um grupo de adultos vacinados contra a covid e gripe com outro grupo de adultos apenas vacinados contra a gripe, demonstrou que a vacinação contra a covid continua a oferecer proteção adicional, demonstrando uma eficácia de 29,3% na redução de episódios de urgência, de 39,2% na redução de hospitalizações e uma eficácia ainda mais marcada, de 64%, na redução das mortes associadas à covid-19.
Assim, apesar de termos, atualmente variantes mais moderadas em termos de gravidade, maior imunidade na população e uma boa parte dos adultos já vacinados em épocas anteriores, a vacina ainda acrescenta benefícios em populações com risco específico. Mesmo quem já teve infeção obtém proteção adicional e os efeitos secundários geralmente são ligeiros e de curta duração. Além disso, a coadministração com a vacina da gripe não aumentou os eventos adversos e é uma prática defendida pela DGS.
Por isso, a resposta à pergunta do título é simples: Se tem 60 anos ou mais ou pertence a um grupo de risco, sim, vale a pena vacinar-se!



