Coube ao jornalista e comentador Henrique Monteiro encerrar a edição de 2025 do programa de Conferência de Vila Verde “Aqui há Cultura”. Na última noite, falou do tema “A (re)construção de um chão comum: tolerância e democracia”, na Biblioteca Municipal, numa iniciativa do Município de Vila Verde em parceria com a EPATV.
Henrique Monteiro, antigo diretor do Expresso e do Courrier Internacional, atualmente comentador da SIC Notícias e da Rádio Renascença, é uma das vozes mais reconhecidas e respeitadas do jornalismo português.
A sua intervenção centrou-se numa reflexão aprofundada sobre a tolerância enquanto pilar essencial da democracia e da convivência em sociedade.
A sessão teve início com a intervenção de Manuela Barreto Nunes, que destacou a ligação de longa data do convidado ao projeto, sublinhando que esta foi a sua terceira participação e anunciou a celebração dos 30 anos da Biblioteca Professor Machado Vilela.
Seguiu-se Arnaldo Varela Sousa, que agradeceu a presença do público e do conferencista, classificando Henrique Monteiro como “uma voz independente, tolerante e respeitada no espaço público português”.
Na sua intervenção, Henrique Monteiro começou por agradecer o convite do Município de Vila Verde e partilhou uma reflexão pessoal sobre a tolerância, tema que afirmou estudar de forma autodidata.
Recorreu a uma analogia para afirmar que a tolerância se assemelha ao bom senso: todos acreditam possuí-la, mas consideram que falta aos outros. A partir da etimologia latina do termo, explicou que tolerância significa resistência, paciência ou resignação, associando-a à capacidade de suportar aquilo que não se pode evitar.
O conferencista abordou ainda a construção histórica do conceito, relacionando-o com o surgimento das regras sociais e com os conflitos religiosos que marcaram a Europa, defendendo que a tolerância não é natural, mas resulta de um exercício contínuo de convivência.
Observou que tende a ser “maior entre vizinhos do que entre estranhos”, embora os conflitos mais intensos surjam frequentemente entre os mais próximos. Referiu também o racismo e a xenofobia como formas de intolerância muitas vezes inconscientes e destacou a democracia como espaço privilegiado para a coexistência da divergência com o consenso, exemplificando com o funcionamento do Parlamento inglês.
No plano político e social, Henrique Monteiro descreveu a tolerância como um “círculo” pessoal, cujo centro varia de indivíduo para indivíduo, defendendo que ninguém pode determinar de forma absoluta o lugar do outro. Apontou o dogmatismo como o “maior inimigo da tolerância” e sublinhou a importância da linguagem e dos conceitos na construção do diálogo. Colocou ainda a questão da tolerância face aos intolerantes, reconhecendo a complexidade do tema e a necessidade de procurar sempre um “chão comum”.
Na conclusão, o jornalista defendeu que a tolerância deve orientar a ação cívica, respeitando os limites da liberdade de expressão quando esta provoca dano ao outro. Enfatizou que tolerar não é ser indiferente, mas aceitar a discordância sem diminuir direitos, dignidade ou liberdade, afirmando que “não podemos permitir que o direito dos outros seja diminuído pela nossa ação ou discurso, porque a liberdade vive dos direitos e dos deveres”.
A conferência terminou com um período de debate aberto, no qual o público participou ativamente, colocando questões e partilhando reflexões sobre os temas abordados.
No encerramento, João Luís Nogueira, diretor da EPATV, agradeceu a presença de todos e, em particular, a Henrique Monteiro pela sua participação em três edições do projeto, deixando a promessa de um regresso futuro. Endereçou ainda palavras de reconhecimento à presidente da Câmara Municipal de Vila Verde, Júlia Fernandes, destacando a abertura e apoio às propostas culturais apresentadas. “Hoje cantou-se um hino à cidadania e à democracia; saímos daqui mais tolerantes”, afirmou.
Júlia Fernandes agradeceu a presença do conferencista e de todos os participantes, sublinhando que Henrique Monteiro encerrou “com chave de ouro” a edição de 2025 do AQUI HÁ CULTURA!. A autarca destacou ainda o trabalho da organização e da biblioteca na promoção cultural do concelho, afirmando que “com todos conseguimos fazer mais cultura e chegar a mais públicos”.
A organização anunciou que o programa regressará em abril de 2026, com uma nova edição e novos convidados, prometendo uma programação ainda mais rica e diversificada.



