Petter Arnett, o repórter que passou décadas a desviar-se de balas e bombas para levar ao mundo relatos em primeira mão da guerra, do Vietname ao Iraque, morreu aos 91 anos.
Arnett, que venceu o prémio Pulitzer em 1966 de reportagem internacional devido à cobertura que fez da guerra do Vietname pela Associated Press (AP), morreu na quarta-feira, em Newport Beach, nos EUA, junto dos amigos e família, disse o filho Andrew Arnett. O repórter sofria de cancro na próstata, segundo avança a AP.
“Peter Arnett foi um dos correspondentes de guerra mais importantes da nossa geração – intrépido, destemido e um belo escritor e contador de histórias. A sua reportagem em papel e em câmara permanecerá um legado para os aspirantes a jornalistas e historiadores durante gerações”, disse Edith Lederer, que foi também correspondente de guerra pela AP no Vietname entre 1972 e 1973 e é, atualmente, a principal correspondente nas Nações Unidas.
Arnett era principalmente conhecido para os colegas jornalistas devido à reportagem do Vietname em 1962 até ao final da guerra em 1975. O repórter tornou-se num nome da casa em 1991, no entanto, após as emissões em direto da CNN a partir do Iraque, durante a primeira Guerra do Golfo.
Enquanto a maioria dos repórteres ocidentais tinha fugido de Bagdade nos dias antes do ataque dirigido pelos EUA, Arnett ficou. À medida que os mísseis começaram a chover na cidade, o jornalista fez uma emissão em direto por telemóvel a partir do quarto de hotel.
“Houve uma explosão mesmo perto de mim, podem ter ouvido”, disse com uma voz calma e sotaque da Nova Zelândia, momentos depois do estrondo alto de um ataque de míssil ter ecoado pelas ondas de rádio. Enquanto Arnett continuava a falar, sirenes de ataque aéreo soavam de fundo.
Arnett ficou na AP até 1981, quando se juntou recém-formada CNN.
Dez anos depois, o jornalista estava em Bagdade a cobrir outra guerra. Arnett não só relatou os combates na linha de frente, mas também conseguiu entrevistas exclusivas e controversas com o então presidente Saddam Hussein e com o futuro mentor dos ataques de 11 de setembro, Osama bin Laden.
Em 1995, Arnett publicou o livro de memórias “Ao Vivo no Campo de Batalha: Do Vietname a Bagdade, 35 Anos nas Zonas de Guerra de Todo o Mundo”.
Arnett demitiu-se da CNN em 1999, meses depois de a emissora ter retirado uma reportagem de investigação que o repórter não preparou, mas narrou, alegando que o gás Sarin, letal para os nervos, tinha sido usado contra soldados americanos desertores em Laos, em 1970.
O jornalista estava a cobrir a segunda Guerra do Golfo para a NBC e a National Geographic em 2003, quando foi demitido por conceder uma entrevista à TV estatal iraquiana, na qual criticou a estratégia de guerra dos militares americanos. As declarações foram denunciadas nos EUA como anti-americanas.
Após a demissão, vários críticos de TV da AP e de outras organizações de notícias especularam que Arnett jamais voltaria a trabalhar em jornalismo televisivo. Contudo, em menos de uma semana, o repórter foi contratado para cobrir a guerra em emissoras de Taiwan, dos Emirados Árabes Unidos e da Bélgica.
Em 2007, começou a lecionar jornalismo na Universidade de Shantou, na China. Depois de se reformar em 2014, Arnett e a esposa, Nina Nguyen, mudaram-se para Fountain Valley, um subúrbio no sul da Califórnia.
Nascido em 13 de novembro de 1934, em Riverton, Nova Zelândia, Peter Arnett teve o primeiro contato com o jornalismo quando conseguiu um emprego no jornal local Southland Times, logo após terminar o ensino secundário.



