A União Europeia (UE) e o Mercosul assinam este sábado, no Paraguai, o aguardado acordo comercial que visa aprofundar as relações económicas entre os dois blocos e criar a maior zona de comércio livre do mundo, abrangendo mais de 700 milhões de consumidores dos dois lados do Atlântico.
Após mais de 25 anos de negociações, a assinatura do tratado ocorre num contexto de crescente protecionismo global e assume-se como um marco estratégico para o comércio internacional. O acordo permitirá eliminar tarifas para 91% das exportações da UE para o Mercosul e para 92% das exportações sul-americanas para a Europa, segundo dados da Comissão Europeia. Em conjunto, os dois blocos representam um Produto Interno Bruto (PIB) de cerca de 22 biliões de dólares (aproximadamente 19 biliões de euros).
A cerimónia de assinatura está marcada para as 11h30 locais (14h30 em Lisboa), no Grande Teatro José Asunción Flores do Banco Central do Paraguai, em Assunção, local simbólico onde o Mercosul foi fundado, em 1991.
O anfitrião será o presidente paraguaio, Santiago Peña, cujo país detém atualmente a presidência rotativa do bloco sul-americano.
A delegação europeia será liderada pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa.
Entre os líderes sul-americanos confirmados estão o presidente da Argentina, Javier Milei, do Uruguai, Yamandú Orsi, do Panamá, José Raúl Mulino, e da Bolívia, Rodrigo Paz.
O Panamá aderiu recentemente ao Mercosul como Estado associado, enquanto a Bolívia se encontra na fase final do processo de adesão como membro pleno.
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, não marca presença na cerimónia, estando o país representado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros. Ainda assim, Lula recebeu Ursula von der Leyen na sexta-feira, no Rio de Janeiro.
O QUE MUDA?
Do ponto de vista económico, o acordo deverá beneficiar significativamente a UE, abrindo um mercado historicamente protegido a setores como a indústria automóvel, a maquinaria industrial, o setor químico e o farmacêutico, com a eliminação progressiva de tarifas atualmente situadas entre 14% e 35%.
Em sentido inverso, a Europa facilitará a entrada de produtos sul-americanos como carne, açúcar, arroz, mel e soja.
Portugal surge entre os países potencialmente beneficiados, sobretudo nos setores do vinho e do azeite, duas das principais exportações nacionais para o mercado brasileiro.
A assinatura do acordo só foi possível depois de, na semana passada, os 27 Estados-membros da UE terem alcançado uma maioria qualificada para autorizar o avanço do processo, apesar da oposição de França, Polónia, Áustria, Irlanda e Hungria, e da abstenção da Bélgica.
A aprovação exigiu a inclusão de salvaguardas adicionais para proteger os agricultores europeus, alvo de protestos recentes contra o tratado.
Apesar da assinatura, o acordo ainda enfrenta desafios, nomeadamente o processo de ratificação no Parlamento Europeu, previsto para 2026, que poderá constituir o último grande obstáculo à sua entrada em vigor.
[email protected] / Foto: Sofia Torres – EPA



