António José Seguro e André Ventura protagonizaram esta terça-feira o único debate da segunda volta das eleições presidenciais, marcado por críticas mútuas sobre liderança, saúde, imigração e poderes do Presidente da República, a poucos dias da decisão final dos eleitores.
Os dois candidatos apurados para a segunda volta das eleições presidenciais, António José Seguro e André Ventura, estiveram esta terça-feira frente-a-frente no último debate antes da votação de 8 de fevereiro, num confronto de 75 minutos centrado na governação, no papel do Presidente da República e nas principais áreas sociais.
António José Seguro abriu o debate afirmando que se candidata “em nome do futuro”, defendendo um país “moderno e justo” e um Presidente que una os portugueses. O candidato socialista sublinhou a importância do diálogo e dos compromissos duradouros, apontando como prioridades a saúde e a habitação. Questionado sobre a ausência da palavra “socialismo” na campanha, afirmou que quer ser “o Presidente de todos os portugueses” e não apenas de uma área política.
André Ventura, por sua vez, acusou o adversário de representar “a captura do sistema” e afirmou que muitos votos em Seguro serão, na realidade, votos contra o líder do Chega. O candidato da direita radical criticou a capacidade de liderança do socialista, recordando a sua passagem pela liderança do PS, e defendeu que o país não pode continuar em “águas-mornas”.
Sobre o papel presidencial, Ventura afirmou que será um Presidente “do povo e não dos governos”, acusando Seguro de querer exercer uma função passiva, comparando-o a uma “rainha de Inglaterra”. Em resposta, o candidato socialista garantiu que será “leal à Constituição” e cooperará com o Governo, mas exigirá resultados concretos, sobretudo no Serviço Nacional de Saúde.
O tema da reforma laboral dividiu os candidatos. Seguro afirmou que a promulgação dependerá do texto final e da existência de concertação social, admitindo vetar a proposta se não houver diálogo. Ventura considerou que a revisão da lei laboral representa um “bar aberto de despedimentos e precariedade” e garantiu que o Chega votará contra caso não haja alterações.
Quanto aos poderes presidenciais, Seguro rejeitou a necessidade de rever a Constituição, defendendo que o Presidente deve garantir estabilidade institucional. Ventura voltou a questionar o atual modelo, embora tenha recuado na ideia de revisão constitucional exclusivamente por esse motivo, o que levou o socialista a acusá-lo de incoerência política.
A saúde foi um dos temas centrais do debate. Ventura responsabilizou PS e PSD pelos problemas do setor, defendendo a alteração da Lei de Bases da Saúde e o fim da direção executiva do SNS. Seguro respondeu que o Presidente deve assegurar compromissos políticos duradouros, defendendo “saúde a tempo e horas para todos os portugueses”.
Na imigração, ambos concordaram na necessidade de regras e integração, mas Seguro destacou o contributo dos imigrantes para a economia e a Segurança Social, enquanto Ventura insistiu na necessidade de maior controlo das entradas.
Em política externa e defesa, Ventura defendeu uma postura de maior firmeza de Portugal face a outros países e criticou a atuação do atual Presidente da República. Seguro anunciou que, se for eleito, convocará um Conselho de Estado dedicado à Defesa e Segurança, defendendo maior autonomia estratégica do país.
O debate terminou num tom tenso, com Seguro a acusar Ventura de seguir uma “política de empadão” e de mudar frequentemente de posição, enquanto o líder do Chega afirmou sair “angustiado” com a falta de propostas concretas do adversário.
Esta é a primeira vez, em cerca de 40 anos, que a eleição presidencial em Portugal é decidida numa segunda volta, colocando frente-a-frente dois projetos políticos opostos para o exercício do cargo de Presidente da República.



