A distribuição está a acompanhar com preocupação a evolução da guerra no Médio Oriente e admite que um eventual agravamento do conflito pode pressionar os preços pagos pelos consumidores. O alerta é da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), que representa 232 empresas de retalho e supermercados em Portugal.
Em declarações ao Jornal Económico, o diretor-geral da APED, Gonçalo Lobo Xavier, afirma que é ainda difícil antecipar os efeitos concretos de um prolongamento ou intensificação da guerra, sobretudo se vier a ocorrer uma disrupção no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas mundiais para o transporte de petróleo.
“O risco existe, como é por demais evidente. As disrupções ou flutuações no mercado global da energia comprometem sempre os custos transversais da economia”, sublinha o responsável.
Apesar de recordar que a Comissão Europeia indicou recentemente não ser esperado um impacto imediato no fornecimento de energia à Europa — sobretudo no caso do petróleo — o responsável nota que o cenário pode ser diferente no caso de outras matérias-primas ou do gás natural, tendo em conta a exposição variável dos mercados europeus.
Segundo Gonçalo Lobo Xavier, as cadeias de valor globais estão altamente interligadas, o que faz com que qualquer perturbação nos mercados energéticos tenha efeitos em cascata.
“As cadeias de valor serão pressionadas e muito dificilmente, dada a sua interdependência, não veremos subidas dos bens energéticos e de outras matérias-primas, que impactam, naturalmente, outros itens da cadeia de valor. E isto é válido para todo o tipo de bens: alimentares e não alimentares”, explica.
Margens curtas limitam capacidade de absorver custos
O diretor-geral da associação lembra que as empresas de distribuição tentam, sempre que possível, evitar repercutir oscilações conjunturais nos preços finais pagos pelos consumidores.
“Os associados tentam resistir sempre — até onde podem — em fazer repercutir impactos pontuais decorrentes de situações atípicas no preço de venda”, afirma.
No entanto, admite que a capacidade de absorção tem limites. Segundo o responsável, as margens do retalho alimentar são particularmente reduzidas, situando-se em média entre 2% e 3%.
“Esmagar margens nem sempre é suficiente para acomodar subidas repentinas dos preços de energia e de algumas matérias-primas”, acrescenta.
Setor preparado para procurar alternativas
Apesar das incertezas associadas à evolução do conflito, a APED acredita que o setor da distribuição conseguirá adaptar-se a um eventual cenário de pressão nas cadeias de abastecimento.
Gonçalo Lobo Xavier recorda a resposta do setor após o início da guerra na Ucrânia, quando os operadores procuraram rapidamente fornecedores alternativos para garantir o abastecimento.
“Tal como na situação de conflito na Ucrânia, o setor irá procurar estar à altura para garantir alternativas viáveis para os consumidores”, conclui.



