Marcelo Rebelo de Sousa termina na segunda-feira o seu segundo e último mandato consecutivo como Presidente da República, concluindo uma década em Palácio de Belém marcada por intensa atividade política, forte exposição mediática e um estilo de proximidade com os cidadãos que o próprio designou como a presidência “dos afetos”.
Professor universitário de Direito, entretanto jubilado, e antigo comentador político televisivo, Marcelo Rebelo de Sousa assumiu a chefia do Estado a 9 de março de 2016, aos 67 anos, após vencer as eleições presidenciais de janeiro desse ano com 52% dos votos, à primeira volta. Candidatou-se com o apoio do Partido Social Democrata (PSD) e do Centro Democrático Social – Partido Popular (CDS-PP), embora tenha conduzido uma campanha centrada na sua independência.
Ao iniciar funções, encontrou um cenário político inédito: um Governo minoritário do Partido Socialista apoiado parlamentarmente por Partido Comunista Português, Bloco de Esquerda e Partido Ecologista Os Verdes — solução política que ficou conhecida como “Geringonça”. O Presidente descreveu a relação institucional com o executivo como uma “coabitação especial”, marcada por cooperação e estabilidade entre 2016 e 2021.
Durante o primeiro mandato, a estabilidade política foi dominante, apesar de momentos de tensão, sobretudo após os incêndios de 2017 que provocaram mais de uma centena de mortos. Em 2021, Marcelo Rebelo de Sousa foi reeleito com 60,67% dos votos, numas eleições realizadas em plena pandemia de COVID-19.
O segundo mandato revelou-se, contudo, politicamente mais turbulento. A primeira grande crise surgiu com o chumbo do Orçamento do Estado para 2022, que marcou o fim da “Geringonça”. Perante o impasse político, o Presidente dissolveu a Assembleia da República em dezembro de 2021, convocando eleições antecipadas.
Das legislativas resultou um Governo do PS com maioria absoluta liderado por António Costa. A relação institucional entre Belém e São Bento tornou-se mais tensa, culminando em 2023 com a demissão do primeiro-ministro na sequência de uma investigação judicial.
Nessa altura, Marcelo Rebelo de Sousa decretou a dissolução do parlamento, decisão considerada a mais controversa do seu mandato e que dividiu o Conselho de Estado. O chefe de Estado encerrava assim um ciclo político de mais de oito anos de convivência com António Costa, sobre o qual viria a comentar: “Éramos felizes e não sabíamos”.
As eleições legislativas antecipadas de 2024 conduziram à formação de um executivo minoritário PSD/CDS-PP liderado por Luís Montenegro. O Governo acabaria por cair no parlamento após a rejeição de uma moção de confiança, apresentada no contexto de uma polémica relacionada com a empresa familiar do primeiro-ministro.
Perante a queda do executivo, o Presidente decretou a terceira dissolução da Assembleia da República durante os seus mandatos — igualando o número de dissoluções do antigo chefe de Estado Ramalho Eanes. Nas eleições seguintes, em 2025, a coligação PSD/CDS-PP voltou a vencer e Montenegro formou um segundo Governo minoritário, num parlamento com maioria à direita.
Marcelo Rebelo de Sousa deixa agora o cargo num cenário político distinto daquele que encontrou em 2016, com o Chega a afirmar-se como segunda força parlamentar e os partidos à esquerda reduzidos a menos de um terço dos deputados.
O seu sucessor será António José Seguro, antigo secretário-geral do PS, eleito Presidente da República na segunda volta das presidenciais de fevereiro com cerca de 67% dos votos, frente a André Ventura, líder do Chega.
Antes do final do mandato, Marcelo Rebelo de Sousa antecipou que o próximo chefe de Estado enfrentará “uma tarefa mais difícil”, num contexto internacional que considera mais incerto e imprevisível, marcado por desafios políticos, económicos e de segurança à escala europeia e global.



