Preços das casas sobem mais do dobro dos salários desde 2019 em Portugal

Os preços da habitação em Portugal aumentaram mais do dobro do crescimento dos salários desde 2019, aprofundando a crise de acesso à casa e colocando uma pressão crescente sobre as famílias. De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística, o valor das casas subiu cerca de 91,8% entre 2019 e 2025, enquanto o rendimento médio líquido aumentou apenas 43,3% no mesmo período.

A diferença evidencia um desfasamento estrutural entre o mercado imobiliário e a evolução dos rendimentos, num contexto em que, apesar de aumentos salariais recentes acima da inflação, estes continuam insuficientes para acompanhar o ritmo de valorização da habitação.

Escalada mais acentuada no longo prazo

Se a análise recuar a 2016, o cenário torna-se ainda mais expressivo: os salários cresceram cerca de 53,3%, enquanto os preços das casas dispararam 155,7%. Mesmo num período mais recente, entre 2023 e 2025, em que os rendimentos tiveram aumentos historicamente elevados, a habitação continuou a valorizar acima — 32,6% face a 20,4% nos salários.

Só no último ano, os preços das casas registaram uma subida de 18,9%, reforçando a tendência de afastamento entre custo da habitação e capacidade financeira das famílias.

Portugal entre os países com maiores subidas

Dados do Eurostat colocam Portugal entre os países com maior aumento dos preços da habitação na última década. Entre 2015 e 2025, os preços cresceram cerca de 175%, sendo o segundo valor mais elevado da União Europeia, apenas atrás da Hungria.

Considerando o período pós-pandemia, Portugal mantém-se entre os países mais pressionados, registando a terceira maior subida, apenas superado pela Lituânia e pela Hungria.

Esforço incomportável para a classe média

O impacto desta escalada é particularmente visível nos principais centros urbanos. Segundo o Banco de Portugal, a aquisição de uma habitação de valor mediano em Lisboa implicaria uma taxa de esforço de 102% para uma família com rendimento médio — ou seja, superior ao rendimento disponível.

No Porto, esse esforço seria de 84%, níveis considerados incomportáveis para a maioria das famílias.

Países mais pobres lideram aumentos

A análise europeia revela ainda um padrão: os maiores aumentos nos preços da habitação ocorreram, em grande parte, em países com rendimentos mais baixos.

Além de Portugal, destacam-se países como Hungria, Lituânia, Croácia, Chéquia e Eslovénia, onde o crescimento dos preços superou o dos salários. Ainda assim, o diferencial português é dos mais elevados.

Entre 2019 e 2024, por exemplo, um casal com dois salários médios em Portugal viu os rendimentos subir 31,8%, enquanto o preço das casas aumentou 61,4%, criando um diferencial de quase 30 pontos percentuais.

Custos de construção e falta de oferta pressionam preços

Especialistas apontam vários fatores para esta evolução. O aumento dos custos de construção, impulsionado por investimentos como o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), tem elevado os preços das novas habitações.

Ao mesmo tempo, a escassez de mão de obra qualificada e a concorrência entre países europeus agravam os custos. A isto soma-se uma oferta insuficiente para responder à procura.

“A indústria não consegue colocar no mercado habitação acessível e compatível com o rendimento das famílias”, alertam analistas do setor.

Pressão migratória e alterações demográficas

A imigração surge também como um fator relevante, ao aumentar a procura por habitação, sobretudo nos grandes centros urbanos. Apesar do crescimento populacional moderado, a mudança na composição dos agregados familiares intensifica a pressão sobre o mercado.

Especialistas sublinham ainda o impacto da fiscalidade e da subutilização de imóveis, que limitam a eficiência do mercado.

Mercado dual agrava desigualdades

Apesar das dificuldades para quem procura casa, há também um efeito positivo para proprietários, que viram o valor do seu património aumentar significativamente nos últimos anos.

Ainda assim, o mercado tende a acentuar desigualdades: enquanto quem já possui habitação beneficia da valorização, quem procura entrar no mercado enfrenta barreiras cada vez mais elevadas.

Sem um aumento significativo da oferta e medidas estruturais, a crise da habitação em Portugal deverá continuar a agravar-se nos próximos anos.

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Jornal O Desportivo

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