Morreu esta sexta-feira, aos 98 anos, o cartoonista, ilustrador, pintor e arquiteto João Abel Manta, uma das figuras mais relevantes da arte portuguesa do século XX, com uma obra amplamente reconhecida pela dimensão crítica e pela defesa da liberdade.
Nascido em Lisboa, em 1928, João Abel Manta era filho dos pintores Abel Manta e Clementina Carneiro de Moura, tendo crescido num ambiente artístico que marcou profundamente o seu percurso. Formou-se em arquitetura na antiga Escola de Belas-Artes, mas viria a dedicar-se sobretudo às artes plásticas e ao desenho.
Desde cedo assumiu posições de oposição ao regime do Estado Novo, integrando a geração de artistas que, através do humor gráfico e da ilustração, contestaram o poder político da época. Em 1948, com apenas 20 anos, chegou a ser detido e esteve preso em Caxias.
Ao longo da sua carreira, destacou-se como um dos mais influentes cartoonistas portugueses, publicando trabalhos em jornais como o Diário de Lisboa, Diário de Notícias, O Século Ilustrado e Seara Nova, especialmente nos anos que antecederam e sucederam a Revolução de 25 de Abril de 1974.
A sua obra caracteriza-se por uma forte carga política e social, marcada pela ironia, pela crítica ao poder e pela defesa dos valores democráticos, sendo considerada um marco na história do cartoon em Portugal.
Para além do desenho e da ilustração, João Abel Manta desenvolveu também trabalho em áreas como a pintura, o cartaz e a tapeçaria, explorando diferentes linguagens artísticas ao longo da sua carreira.
Em 2024, por ocasião das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, o Palácio Anjos, em Algés, acolheu a exposição “João Abel Manta Livre”, que reuniu obras inéditas ou raramente exibidas, incluindo cartazes de cinema, tapeçarias e azulejos, destacando a amplitude do seu legado artístico.
A morte de João Abel Manta representa a perda de uma das figuras mais marcantes da cultura portuguesa contemporânea, cuja obra permanece como testemunho de resistência, criatividade e liberdade.



