As famílias portuguesas continuam entre as que menos conseguem poupar na Europa, numa altura em que o aumento do custo de vida continua a pressionar os orçamentos domésticos. Segundo dados recentes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), Portugal regista uma taxa líquida de poupança de apenas 3,4%, um valor bastante inferior à média da União Europeia, fixada em 8,1%.
Os números foram divulgados num estudo publicado pela Euronews Business com base em estatísticas da OCDE e colocam Portugal entre os países europeus com menor capacidade de reservar parte do rendimento disponível após o pagamento das despesas essenciais.
A taxa líquida de poupança mede a parcela do rendimento disponível das famílias que não é utilizada em consumo final, refletindo o montante que sobra depois de suportados encargos como habitação, alimentação, energia, transportes e outras despesas correntes.
No contexto europeu, Portugal surge apenas acima de países como a Eslováquia, com uma taxa de 2%, a Estónia, com 3%, e a Lituânia, com 3,8%. A Letónia apresenta mesmo uma taxa nula, o que significa que as famílias gastam praticamente a totalidade do rendimento disponível.
Apesar de se manter em terreno positivo, Portugal continua distante dos países europeus onde os agregados familiares conseguem poupar uma parcela significativa dos seus rendimentos mensais.
No topo da tabela surgem a Suécia e a Hungria, ambas com uma taxa líquida de poupança de 14,7%. Seguem-se a Chéquia, com 13,7%, a França, com 12,8%, a Alemanha, com 10,3%, e os Países Baixos, com 10,2%.
Espanha apresenta igualmente um desempenho superior ao português, com uma taxa de poupança de 9,2%, acima da média europeia.
A Grécia continua a representar o caso mais extremo na Europa, sendo o único país com taxa líquida de poupança negativa. Segundo os dados da OCDE, as famílias gregas gastam atualmente mais do que recebem, recorrendo a poupanças acumuladas ou ao endividamento para fazer face às despesas.
A taxa de poupança grega situa-se em -9,3%, depois de ter atingido um mínimo histórico de -16,5% em 2013, durante o período mais crítico da crise da dívida soberana.
Citado pela Euronews Business, o professor Michael Haliassos, da Goethe University Frankfurt, explica que os níveis de poupança variam significativamente entre países devido a múltiplos fatores, incluindo a composição etária da população e a capacidade das famílias responderem a crises económicas.
“Os principais determinantes da taxa de poupança são a composição etária da população e a capacidade de resposta dos diferentes grupos familiares e profissionais às crises”, afirmou o especialista.
O académico alerta, contudo, para as dificuldades metodológicas na comparação internacional das taxas de poupança, sublinhando que existem limitações na medição do rendimento disponível e dos padrões de consumo das famílias.
O estudo destaca ainda que a maioria dos europeus continua a poupar sobretudo por razões de segurança financeira. Quase dois terços dos cidadãos afirmam poupar por precaução, enquanto cerca de metade aponta a reforma como principal objetivo.
Os economistas Charles Yuji Horioka e Luigi Ventura, citados num estudo do National Bureau of Economic Research (NBER), defendem que a robustez dos sistemas públicos de proteção social influencia diretamente os hábitos de poupança das famílias.
Segundo os investigadores, os cidadãos tendem a poupar menos para a reforma em países com sistemas públicos de pensões mais generosos e menos para emergências em países com serviços públicos de saúde mais abrangentes.
Entre as maiores economias europeias, o Reino Unido e Itália também apresentam taxas de poupança abaixo da média europeia. O Reino Unido regista 4,7%, enquanto Itália apresenta 3,2%, valor próximo do registado em Portugal.
Já países tradicionalmente associados a elevados níveis de rendimento, como a Dinamarca e a Finlândia, registam taxas de poupança de 7,5% e 4,4%, respetivamente, também abaixo da média da União Europeia.



