Portugal está a registar um aumento da saída de trabalhadores estrangeiros, numa tendência que começa a preocupar vários setores da economia nacional fortemente dependentes de mão de obra imigrante. Segundo dados recentes da Segurança Social, cerca de 45 mil trabalhadores estrangeiros abandonaram o país em 2024, o valor mais elevado desde 2015.
O fenómeno é destacado esta sexta-feira pelo jornal Expresso, que relata casos de imigrantes brasileiros e de outras nacionalidades que decidiram regressar aos países de origem ou procurar melhores condições noutros destinos europeus, nomeadamente Espanha.
Entre as principais razões apontadas para este êxodo estão o aumento do custo de vida, especialmente das rendas, os baixos salários, os atrasos nos processos da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), as dificuldades no reconhecimento de qualificações profissionais e episódios de discriminação e xenofobia.
O setor do transporte individual de passageiros em veículos descaracterizados (TVDE) é um dos mais afetados. A demora na renovação de documentos legais tem impedido muitos motoristas de continuar a exercer atividade, levando parte significativa destes profissionais a abandonar o país.
“Na última semana, em Lisboa, desapareceram mil motoristas, deixaram de operar na cidade. Estão carros parados”, afirmou ao Expresso Vítor Soares, representante da Associação Nacional Movimento TVDE.
A falta de trabalhadores estrangeiros começa também a fazer-se sentir em áreas como os lares de idosos, hotelaria e restauração, setores que há vários anos dependem fortemente da imigração para assegurar o funcionamento regular das operações.
Manuel Lemos, presidente da União das Misericórdias Portuguesas, alertou para as dificuldades crescentes de recrutamento, sobretudo no sul do país e em particular no Algarve.
“Há três ou quatro meses que vários provedores começaram a sentir mais dificuldades de recrutamento, precisamente porque há menos imigrantes. O peso destes trabalhadores neste setor é muito significativo. Há misericórdias onde são a maioria”, afirmou.
A mesma preocupação é partilhada pela Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP), num setor onde, em 2023, os trabalhadores estrangeiros representavam cerca de um terço da força laboral.
Um relatório intitulado “Emprego em Portugal”, elaborado pela CoLABOR, associação reconhecida pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, alerta mesmo para o risco de colapso de vários setores da economia nacional caso Portugal deixe de conseguir atrair ou reter trabalhadores estrangeiros.
O estudo sustenta que a imigração tem sido determinante para compensar o envelhecimento da população portuguesa, a escassez de mão de obra e a crescente dificuldade de recrutamento em áreas consideradas essenciais.
Especialistas e representantes empresariais defendem, por isso, uma resposta mais célere nos processos de regularização e renovação documental, alertando que a perda de trabalhadores estrangeiros poderá agravar ainda mais os problemas estruturais do mercado laboral português.



