A perturbação obsessivo-compulsiva (POC), caracterizada por pensamentos intrusivos recorrentes e comportamentos repetitivos, poderá ter origem em alterações do desenvolvimento inicial do cérebro, ainda antes do aparecimento dos primeiros sintomas. A conclusão resulta do maior estudo mundial de neuroimagem realizado sobre esta doença, publicado na revista científica Nature Communications.
A investigação, liderada pela Universidade de Yale, nos Estados Unidos, reuniu dados de 4519 participantes — 2255 pessoas com POC e 2264 sem diagnóstico da doença — provenientes de 26 países. O estudo envolveu cerca de 200 investigadores de 89 instituições internacionais e integrou informação de 47 bases de dados de neuroimagem através do consórcio científico ENIGMA-OCD.
Em Portugal, a investigação teve como investigador principal Pedro Morgado, do Instituto de Ciências da Vida e Saúde (ICVS) da Escola de Medicina da Universidade do Minho e do Centro Clínico Académico de Braga (2CA-Braga).
Segundo os investigadores, os resultados identificaram padrões de alterações estruturais em várias regiões cerebrais associados à atividade de genes envolvidos no desenvolvimento e funcionamento dos neurónios, reforçando a hipótese de que a POC poderá estar relacionada com processos neurobiológicos muito precoces.
“A POC é uma das perturbações psiquiátricas mais incapacitantes e tem sido diagnosticada há décadas por critérios clínicos, sem biomarcadores definidos; por isso, este estudo é um passo relevante para uma sua caracterização neurobiológica mais completa e para desenvolver abordagens terapêuticas mais direcionadas”, explica Pedro Morgado.
Estudo analisou 13 características do cérebro
Ao contrário de trabalhos anteriores, que se concentravam sobretudo em três medidas da estrutura cerebral, esta investigação avaliou 13 características distintas — nove relacionadas com o córtex cerebral e quatro com estruturas subcorticais.
Entre os novos parâmetros analisados esteve a curvatura do córtex cerebral e a organização estrutural entre diferentes regiões do cérebro. Os investigadores verificaram que alterações na curvatura cortical, sobretudo nas regiões frontal e parietal, permanecem presentes tanto em doentes medicados como não medicados, podendo representar um marcador associado à própria doença.
Já a redução da espessura, área e volume cerebral parece ser influenciada pelo estado de medicação dos pacientes, podendo estar relacionada com a evolução prolongada ou com formas mais graves da perturbação.
O estudo identificou ainda alterações em áreas cerebrais ligadas ao processamento sensorial e ao controlo do movimento, regiões que poderão desempenhar um papel relevante nos mecanismos da POC.
Participação portuguesa contribuiu para avanço internacional
A investigação contou com a colaboração de uma equipa do ICVS/Escola de Medicina da Universidade do Minho e do 2CA-Braga, constituída por Pedro Morgado, Ana D. Costa, Afonso Fernandes, Mafalda Machado-Sousa, Maria Picó-Pérez e Ana Araújo.
Participaram também Miguel Castelo-Branco e Isabel C. Duarte, investigadores do Centro de Imagem Biomédica e Investigação Translacional de Coimbra.
Os cientistas sublinham que a dimensão da amostra e a integração de diferentes metodologias permitiram obter resultados mais robustos sobre as bases biológicas da doença.
Relação entre genética e alterações cerebrais
Uma das principais novidades do estudo foi a ligação entre alterações observadas nas imagens cerebrais e a atividade de genes associados ao desenvolvimento dos neurónios antes e depois do nascimento.
A análise genética, desenvolvida por uma equipa da Universidade de São Paulo, foi complementada com dados provenientes de tecido cerebral de doentes submetidos a cirurgia, permitindo aproximar pela primeira vez os resultados da neuroimagem e da genética.
Os investigadores consideram que esta descoberta reforça a possibilidade de a POC resultar de alterações que surgem durante fases muito precoces do desenvolvimento cerebral, abrindo caminho para uma melhor compreensão dos mecanismos da doença e para futuras estratégias terapêuticas mais personalizadas.
A perturbação obsessivo-compulsiva afeta entre 2% e 4% da população mundial e é considerada uma das doenças psiquiátricas com maior impacto na qualidade de vida dos doentes.



