Um grupo de 60 militantes do Bloco de Esquerda (BE), entre os quais o histórico da União Democrática Popular (UDP) Mário Tomé e o ex-deputado Pedro Soares, anunciou esta terça-feira a saída do partido, justificando a decisão com profundas divergências em relação ao rumo político seguido pela direção nos últimos anos.
Num comunicado enviado às redações, os subscritores afirmam que o projeto político a que aderiram “deixou de existir”, concluindo que “o nosso Bloco acabou”.
“Sem pena, dadas as circunstâncias expostas, mas lamentando o fim de um projeto que se destinava a unir amplos setores da sociedade por uma alternativa contra a hegemonia neoliberal, tendo como horizonte a radical transformação da sociedade, deixamos de ser bloquistas porque o nosso Bloco acabou”, escrevem.
Os antigos militantes sustentam que o partido perdeu a identidade que esteve na origem da sua fundação e acusam a atual direção de se ter afastado das bases e da sociedade.
“O Bloco a que aderimos e ajudámos a construir com entusiasmo e empenho já não o é”, afirmam, ressalvando que muitos dos militantes que permanecem no partido continuam a representar “uma esquerda de combate”.
No documento, os signatários fazem um balanço fortemente crítico da evolução do BE, apontando como momento decisivo o período da denominada “geringonça”, em que o partido celebrou um acordo parlamentar com o Governo do PS liderado por António Costa.
Segundo os ex-militantes, a direção transformou um entendimento político conjuntural numa estratégia permanente, comprometendo a autonomia do partido. “Da resposta política certa, o Bloco embarcou acriticamente na ‘geringonça’. Afeiçoou-se à ideia de doces entendimentos e colocou como objetivo central a participação no Governo, numa triste rendição a uma social-democracia dissolvida no neoliberalismo”, criticam.
O comunicado acusa ainda a liderança bloquista de concentrar excessivamente o poder de decisão no Secretariado, de afastar vozes críticas e de promover um ambiente interno pouco aberto ao debate.
“A centralização das decisões num Secretariado sem competências para tal, mas omnipotente, levou ao afastamento de quem expressava posições críticas ou alternativas”, defendem, acrescentando que esse processo contribuiu para a saída de “centenas de militantes” e de diversos dirigentes nacionais e distritais.
Os signatários consideram também que os sucessivos maus resultados eleitorais refletem a perda de influência política e social do partido, apontando a diminuição da representação parlamentar como consequência das opções estratégicas adotadas.
“Errar é humano e reconhecer o erro também o é. Porém, o núcleo dirigente recusou qualquer reflexão autocrítica e optou por perseguir as vozes que alertavam para a necessidade de mudar de rumo”, concluem.
A saída coletiva de 60 militantes representa mais um momento de contestação interna no Bloco de Esquerda, numa fase em que o partido atravessa um período de forte retração eleitoral, contando atualmente com apenas um deputado na Assembleia da República.



