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António Cerqueira, por Miguel Brito, uma “Testemunha de abonação”

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António Cerqueira, Presidente

  In memoriam

“Testemunha de abonação”

 

Jura dizer a verdade? Juro

Em boa verdade, conheço-o há menos tempo que ele a mim, que me conheceu quando nasci. Nesta circunstância, só sabemos traçar o perfil das pessoas por memórias e pelo que diziam os adultos.

Ele vivia na região de Inhambane, entre Panda, Homoíne,  Závora, Inharrime e Zavala; talvez mais longe, um homem da sua estirpe vai sempre mais longe  do que a imaginação concede.

Aos olhos da minha mãe, Professora Primária, Diretora da Escola, uma figura como António Cerqueira, um agitador de sonhos e um fazedor de coisas, não cabia bem no registo mecanográfico do Professor de uma escola primária do Estado Novo, no quadro do regime colonialista.

António Cerqueira, saía dos cânones do regime e era já na altura um homem “fora da caixa”, um homem da liberdade e do vento, da força e da vida.

Foi fazendeiro, proprietário, criador de gado e era um empreendedor numa terra cujo horizonte era difícil de enxergar e tocar.

Quando deixou a sua terra Vila Verde, as suas raízes,  percebeu que o seu mundo crescia fora das fronteiras e não por ali, em Mós.

A sua passagem por Moçambique, onde fundou família, casou, teve filhos, fez fortuna, ia dar-lhe a visão que mais tarde, colocou ao serviço do seu concelho.

O ilustre conterrâneo de António Cerqueira, Dr. João Lobo, escreveu num belo poema “quando eu morrer levem-me para Santa Maria de Mós”. São dois seres excecionais, de Vila Verde e de Mós, com os quais privei, mas que vida vê de ângulos distintos.

A grandeza do Dr João Lobo, não se medirá pelas reverencia dos políticos ( que se serviam dele) da classe “legista” enlutada e das procissões, mas era o homem simples, culto, humanista e despojado que regressou ao seu poema.

António Cerqueira, Senhor Presidente, é o homem que o povo adora e reconhece e é o político que muitos admiravam, pela sua singularidade, coragem , firmeza e humanidade.

O João Lobo voou de Mós para a “Grécia” e o António Cerqueira de Mós para a Savana de Moçambique.

Mais tarde António Cerqueira, chegado de África, chega a Vila  Verde para rasgar caminhos, ligar estradas, levar água e luz até à Portela do Vade ou das Cabras.

Era um estilo de liderança do CDS, maior que o seu partido, muito parecido com outro autarca democrata cristão, Kruz Abecassis, Girão Pereira (Lisboa e Aveiro) que mostraram há muitos anos que estar com o povo é muito diferente de ser populista e que se pode ser de direita e estar do lado do povo, para o que der e vier!

Era previsível que na hora das sua despedida, juntasse muita gente, porque ele era amado no meio do povo.

Muito recentemente, recebeu na sua casa em Atiães, uma família moçambicana que foi agradecer-lhe um dia ter emprestado a Quinta para passarem uns dias de lua de mel e queriam mostrar aos filhos o Sr António Cerqueira e a sua incansável esposa, a sua gratidão.

Era verão e o Sr António Cerqueira, perguntou se eles não queriam passar uns dias na Póvoa do Varzim, onde tinha um apartamento.

Entregou-lhes a chave e disse que não sabia o número da porta ao certo, mas que era ao lado de uma pequena mercearia e que aproveitassem.

Viajou vezes sem fim para Moçambique que amava sem medida e adorava o Brasil .

Contou-me histórias de caça entre o intervalo de exames de adultos.

Regressou a Mós e eu ali voltei, duas vezes em pouco tempo, para me despedir de duas pessoas com quem aprendi muito.

Por Miguel Brito / Advogado 

 

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