ENTREVISTA

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De Braga para o país parte apelo para “um sobressalto cívico de emergência”

Em poucos meses, o Movimente de Cidadania agitou a cidade de Braga ao propor, já com a pré-campanha para as Autárquicas a decorrer, uma reflexão sobre a Democracia e a participação cívica, um dos seus principais pilares. Derrotar a abstenção é um dos propósitos de um movimento cujo Manifesto conta com mais de duas centenas de subscritores. O antigo jornalista Paulo Sousa, o seu mentor, viu-se acusado procurar protagonismo, imputação habitual dos que olham com desconfiança os movimentos de cidadãos que escapam a aparelhos partidários e institucionais. Imune a estes “fantasmas”, o Movimento cresce e já pensa em ‘exportar’ o Manifesto para todo o país.

É bem possível que ainda antes de Setembro surja uma conferência sobre a problemática da abstenção. O Movimento também promete pôr o país a discutir o voto electrónico.

Depois de pouco mais de dois meses após a apresentação do Movimento que balanço faz?

Na verdade, são quatro meses desde que o Movimento de Cidadania foi apresentado, ainda que, inicialmente, na primitiva forma de ‘Candidatura’. No dia 25 de Abril, anunciei a minha candidatura em Braga Contra a Indiferença e no dia 1 de Maio expliquei que tinha uma palavra a dizer nas próximas eleições autárquicas. Nesta fase, que foi de provocação à sociedade civil, a minha intervenção culminou com a afirmação de que queria influenciar. As três ideias sintetizam aquilo que à força deste Movimento: combater a Indiferença através do exercício de cidadania e o dever de votar. Braga, tal como o país, regista 45 por cento de abstenção. São números assustadores.

E a provocação resultou?

-De que maneira! Primeiro porque desencadeou a curiosidade sobre se era uma candidatura a votos e isso provocou a discussão e perplexidade; depois houve uma fase de relaxamento e de expectativa. Tive o cuidado de avisar antes as candidatas e os candidatos de qual era o propósito e explicar que esta manifestação de vontade da candidatura era um exercício de cidadania para o qual todos eramos chamados a intervir.

E o balanço?…

Extremamente positivo. Comecei a contactar cidadãs e cidadãos a explicar o projecto e a receber adesões à iniciativa. Poucos foram os que se mostraram cépticos ou desconfiados das verdadeiras razões. A sua adesão ficou condicionada ao conteúdo do Manifesto que, entretanto, foi elaborado por uma Comissão de Redacção constituída pelo empresário Ricardo Costa, pelo sacerdote Silva Araújo, pelos docentes do ensino superior e universitário, Maria José Fernandes e José Miguel Braga, pela livreira, Helena Veloso e por mim próprio. Todos concordaram com o seu conteúdo e isso foi fundamental para o passo seguinte. 

Segundo sei, o Manifesto conta já com mais de 200 subscritores.

Numa semana, 70 personalidades, entre homens e mulheres, assumindo a sua condição de cidadania e a sua profissão, não o cargo, deram o sinal de que era viável avançar para a apresentação pública e foi isso que aconteceu no Altice Forum de Braga, no dia 7 de Junho.

Foi difícil convencer os partidos e as candidaturas?

Nem por isso. Respeitando a decisão das candidatas do Bloco e da CDU que declinaram o convite para subscrever o Manifesto, os restantes disseram que subscreveriam o documento e foi o que fizeram na apresentação pública para a qual foram convidados. Concordaram que se tratava de uma boa ideia e atribuíram-lhe importância alta. 

É a partir desse momento que o Movimento ganha o dinamismo que agora se lhe reconhece?

Considero-o um momento crucial para os objectivos do Movimento que passa, também, pela necessidade de desencadear uma ‘revolução’ na relação que os partidos estabelecem com os seus eleitores e vice-versa. 

‘Revolução’ em que direcção?

É preciso reverter o divórcio entre a cidadania e a política. Na sociedade portuguesa, esta separação foi prejudicial à Democracia e remeteu para os partidos toda a responsabilidade pelo exercício da política e esse foi o grande equívoco: o exercício da cidadania é um acto iminentemente político. 

Repara, os portugueses estão desconfiados, dizem mal da classe política, afastaram-se e com isso deixaram que se desencadeassem em Portugal casos no exercício de responsabilidades políticas em que a pouca continua a haver falta de transparência e corrupção, minando a confiança que deveria ser um princípio inviolável.

Há solução?

Na minha intervenção, na Assembleia Municipal de Braga, tive a oportunidade de falar deste problema e lembrar aos deputados e autarcas que “os males da Democracia combatem-se com mais Democracia” como nos lembrou o político norte-americano, Alfred Emanuel Smith. Mais do que procurar culpados, queremos soluções. Acreditamos que o debate, o confronto de ideias, a capacidade de influenciar, o dever de dizer Não e Sim é inerente à condição primordial da pessoa, enquanto parte integrante de uma sociedade…

E isso é suficiente?

Não, não é! Ficou o apelo para que haja um esforço para restaurar a confiança das cidadãs e dos cidadãos. É preciso debater e muito depois de uma ausência prolongada de uma cidadania activa. Os bracarenses e os portugueses não se podem esquecer de que “o voto não é apenas o exercício da Cidadania, é um exercício de poder”, citando o pensador, Fernando Scheurmann. 

E o poder de escolher, de optar, é fundamental em Democracia…

O poder de escolher, de decidir sobre o que queremos e para onde queremos ir. E necessário alterar o modelo das assembleias de voto, multiplicando-as onde isso se justifica e introduzir o debate sobre o voto electrónico.

A campanha já está no terreno junto de diversos sectores da sociedade. Como é que está a correr?

Fizemos um esforço para não deixar ninguém de fora. Envolvemos dezenas de associações juvenis, recreativas e culturais e estas responderam positivamente. Conseguimos juntar mais novos e mais velhos no anúncio público da sua subscrição do Manifesto. Foi um momento muito importante. A juventude é a chave de sucesso deste projecto.

Os empresários também fazer parte desta prioridade?

São cruciais. Desde a primeira hora que tivemos o apoio dos líderes empresariais e de vários empresários, grandes, médios e pequenos.  A campanha que a Associação Empresarial de Braga desencadeou esta semana o comércio é relevante e vai ajudar a passar a mensagem.

E há novas iniciativas na forja?

Estamos a trabalhar para conseguir viabilizar uma conferência sobre esta problemática da abstenção. Vamos ver se será viável ainda a tempo desta eleição. Os nossos esforços estão agora virados para a Semana da Democracia que vai ocorrer na semana de 6 a 12 de Setembro. As organizações juvenis terão a seu cargo a realização de debates com os associados e o dia 11, espero, estarão na linha da frente com a promoção de um Dia Aberto dos partidos. 

Na prática, como vai decorrer esse Dia Aberto?

Pela primeira vez, as forças políticas vão estar de portas abertas e os que não tem sede, vão montar bancas no centro da cidade para que todos possam conhecer os programas e esclarecer com as candidatas e com os candidatos duvidas e opções. Haverá, igualmente, uma exposição de livros sobre a temática da Democracia na Livraria Centésima Página que conta com a colaboração do fotojornalista, Alfredo Cunha. A literacia política deve ser um desígnio nacional. No nosso quem quiser pode acompanhar nosso site    https://candidaturacontraaindiferenca.pt/   o trabalho que fazemos. 

Tem falado de que gostava que esta causa em Braga fosse transformada em causa nacional. O que é que está a ser feito para que isso aconteça?

Fizemos um esforço junto do Presidente da República para que aderisse a esta causa e ontem mesmo [sexta-feira, dia 13], o presidente da Associação Empresarial de Braga, esteve reunido com Marcelo Rebelo de Sousa a quem explicou os méritos deste projecto. Enviámos o Manifesto ao Presidente da Assembleia da República e grupos parlamentares e ao próprio primeiro-ministro. Esperamos que a sua intervenção ainda vá a tempo para que o país acorde para esta emergência nacional. Precisamos de um sobressalto cívico de emergência.

Quando apresentou a sua candidatura/provocação, houve quem a olhasse como uma estratégia para ganhar protagonismo político, um tomar o pulso a possíveis apoios com vista às Eleições Autárquicas de Setembro. Quer comentar?

Um autêntico disparate! Nunca me passou pela cabeça ir a votos; se quisesses candidatar-me tinha-o anunciado. Como já disse, essa candidatura entre aspas não passou de uma provocação que obedecia a um plano estratégico de comunicação. Recordo que antes de lançar o Movimento entrei em contacto com todas as forças políticas.  Só gente de má vontade, que só vê fantasmas, é que poderia pensar uma coisa dessas. Se algum dia quiser candidatar-me, não peço autorização nem dou explicações a ninguém.

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