Texto: Luís Sousa
Sou do tempo em que a máquina fotográfica passava a maior parte do ano na gaveta do armário à espera da melhor ocasião para registar aquele momento especial do ano. As férias ou o aniversário eram alguns dos momentos dignos que mereciam nota de registo nos álbuns de família.
Os rolos permitiam, na melhor das hipóteses, registar pouco mais de trinta fotografias o que exigia de nós muito critério na seleção da melhor oportunidade. Se por um lado, muitos momentos do nosso passado não tiveram registo fotográfico, o que nos pode deixar uma certa nostalgia por fazerem parte, apenas, das nossas memórias, também é verdade que, talvez por isso, o tempo, naquele tempo, era vivido com outra intensidade.
Hoje, tudo é diferente. Passamos a vida a registar o presente e, sem nos darmos conta, nem o vivemos verdadeiramente. Gravamos tudo, filmamos tudo, fotografamos tudo, do mais importante ao mais trivial: o que comemos, as férias, o quotidiano, os encontros sociais e, não raras vezes, a própria intimidade, numa exposição contínua e, muitas vezes irrefletida.
Pagamos bilhete para um concerto ao vivo, mas quando nos damos conta, percebemos que passamos mais tempo a filmar e a fotografar do que a viver a experiência propriamente dita. Transformamo-nos, nas últimas décadas, em cameramen permanentes das nossas próprias vidas e também a vida dos outros. A este propósito, impressionam-me as situações de violência nas escolas e nas ruas em que a malta assiste impávida de telemóvel na mão e com a objetiva apontada a registar a cena, numa atitude de passividade desconcertante onde é mais importante registar o acontecimento para depois partilhar a desgraça do que propriamente ajudar quem precisa.
E nem a vida política escapa a esta lógica. A ação pública parece, por vezes, mais orientada para a necessidade de produzir uma imagem eficaz ou um vídeo curto com impacto nas redes sociais do que propriamente trazer conteúdo diferenciador e importante para a vida das pessoas. A ação política está, algumas vezes, mais focada nas câmaras e objetivas do que propriamente nas pessoas.
Não quero ser alarmista, mas temos de ter consciência de que o digital está a tomar conta de nós. Vivemos cada vez mais ligados ao feed interminável de publicações das redes sociais e cada vez mais desconectados uns dos outros. Recordo, a este propósito, um aviso que vi algures que dizia: “Não temos WiFi. Conversem entre vocês”. Não foi por acaso que, no apagão de abril do ano passado, vimos pessoas à janela, nas ruas e nas varandas à procura de alguém para conversar, numa espécie de lembrete do Portugal dos anos 90.
Quantos silêncios à volta das mesas de café e até nos nossos lares não poderiam ser quebrados se porventura a bateria do telemóvel se esgotasse ou o WiFi não funcionasse? Pensemos nisso!



