Os verões europeus sem ondas de calor poderão tornar-se uma realidade do passado. Cientistas alertam que o continente terá de se adaptar a períodos de calor extremo cada vez mais frequentes, intensos e prolongados, num cenário associado ao avanço das alterações climáticas.
A Europa está a aquecer a um ritmo duas vezes superior à média global e fenómenos que anteriormente eram considerados excecionais começam a repetir-se com maior regularidade no calendário climático europeu.
A onda de calor registada em junho assumiu particular relevância por ter ocorrido antes do período tradicionalmente associado aos maiores picos de temperatura na Europa Ocidental. Em vários países, incluindo França, Alemanha, Itália, Espanha e sul de Inglaterra, os termómetros chegaram a valores entre 5 e 12 graus acima da média habitual para a época.
Durante esse episódio foram alcançados novos recordes de temperatura máxima em várias estações meteorológicas europeias. A Alemanha registou 41,7 graus, a República Checa atingiu 41,1 graus, a Polónia chegou aos 40,5 graus e a Dinamarca alcançou os 37 graus. França registou igualmente máximas superiores a 40 graus, enquanto Reino Unido, Suíça e Hungria tiveram regiões com valores inéditos para o mês de junho.
Calor extremo já provoca impacto na mortalidade
As consequências das temperaturas extremas já se refletem na saúde pública. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1.300 mortes em excesso foram registadas na Europa desde 21 de junho.
Apesar da gravidade do episódio mais recente, os números continuam longe da onda de calor de 2003, que provocou cerca de 70 mil mortes no continente, sobretudo em países como Itália, França, Espanha e Alemanha.
A principal diferença, segundo os especialistas, está na frequência destes acontecimentos. Fenómenos que no passado surgiam com grandes intervalos de tempo estão agora a ocorrer praticamente todos os anos em algumas regiões europeias.
A organização World Weather Attribution tem defendido que várias ondas de calor recentes seriam muito menos prováveis sem a influência das alterações climáticas provocadas pela emissão de gases com efeito de estufa. O aquecimento global está a tornar estes episódios mais frequentes, mais intensos, mais duradouros e com início cada vez mais precoce.
Em França, por exemplo, das 52 ondas de calor registadas desde 1947, cerca de dois terços ocorreram já no século XXI.
Temperaturas extremas chegam a novas regiões
A mudança climática está também a alterar a geografia do calor extremo na Europa. Temperaturas superiores a 40 graus, antes associadas sobretudo ao sul mediterrânico, começam a atingir zonas como Paris, o sul de Inglaterra e regiões do norte da Alemanha.
Para milhões de europeus, esta nova realidade representa um desafio adicional, uma vez que muitas habitações, edifícios públicos e infraestruturas urbanas não foram concebidos para responder a períodos prolongados de calor intenso.
Entre 18 e 30 de junho de 2026, dados citados pela World Weather Attribution indicam que 45% das 854 cidades analisadas registaram recordes históricos de stress térmico, um indicador que combina temperatura e humidade para avaliar o impacto do calor no corpo humano.
Cidades e edifícios enfrentam desafio de adaptação
A vulnerabilidade europeia está também relacionada com a preparação das cidades e do parque habitacional. Apenas cerca de 20% das casas no continente possuem ar condicionado, enquanto muitos edifícios foram construídos para conservar calor durante o inverno e não para o dissipar no verão.
Hospitais, escolas, lares, transportes públicos e espaços urbanos continuam, em muitos casos, pouco preparados para semanas consecutivas de temperaturas extremas.
Entre as medidas apontadas pelos especialistas para reduzir os impactos estão a criação de redes de refúgios climáticos, o aumento de espaços verdes, a instalação de telhados refletores ou verdes, a criação de mais zonas de sombra e a utilização de materiais urbanos capazes de reduzir o aquecimento das cidades.
Nas regiões mediterrânicas, onde os episódios de calor extremo deverão tornar-se mais frequentes, a adaptação urbana assume uma dimensão crescente de saúde pública.
Impacto económico poderá agravar-se
Além das consequências humanas e ambientais, os especialistas alertam para o impacto económico das ondas de calor. Um estudo da Allianz estima que, caso estes fenómenos se tornem mais frequentes, as perdas acumuladas para a economia alemã entre 2026 e 2030 poderão atingir os 131 mil milhões de dólares.
Agricultura, produtividade laboral, saúde, energia e transportes estão entre os setores mais expostos aos efeitos das temperaturas extremas.
Perante este cenário, os cientistas defendem que a redução das emissões de gases com efeito de estufa e a adaptação das sociedades ao novo contexto climático serão determinantes para limitar os impactos dos futuros verões europeus.



