OPINIÃO - Existe algo profunda e inequivocamente humano no Blues

OPINIÃO -
Existe algo profunda e inequivocamente humano no Blues

Autor: Nuno Andrade

O Blues não tem a pretensão de ser algo mais do que é. Apenas se cumpre, e cumpre-se por ser humano.

Todo o requinte e complexidade do blues está no “Sentimento”. Este é o fator de importância principal, sendo também o mais difícil de controlar ou acrescentar numa interpretação.

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O “Sentimento”, ou como se diz no meio o “Feeling” ou “Soul” é, sem dúvida, o líquido amniótico de cada história cantada e de cada nota tocada. Está em todos os murmúrios das vozes e pulsar dos ritmos. Interpretado por um bom bluesman, tudo caminha lado a lado de forma irregular, orgânica, mas perfeita.

A identidade do intérprete ou compositor, a sua “assinatura” a sua “voz”- mesmo no seu instrumento- é algo muitíssimo importante e dificílimo de obter.

Está documentado o passado do Blues, dos campos de trabalho em período esclavagista (e posterior segregação racial) e do Gospel – que não cabe a esta peça relatar. Importa, sim, referir que o sentimento das vozes e dos instrumentos nasce de uma emotividade profunda aliada ao sangue cultural/musical africano. Cantava-se a sós ou em conjunto a fé, sentimentos e a vida. Creio que, no fundo, se fazia o possível para aguentar a pobreza, a injustiça e o medo – talvez sentindo que assim se tinha controlo sobre algo – a sua fé, a sua voz e a sua mensagem.

O Blues como no Gospel, não se esconde por trás de palavras complexas ou exercícios gramaticais elaborados, sobretudo porque não precisa, mas porque, creio, nem existia sequer essa intenção.

Outro lado muito humano do Blues, é que cada letra procura contar sempre uma história, por mais simples que seja. Como me referiu um amigo, o ser humano é naturalmente interessado por histórias, somos sensíveis ao poder da narrativa. Foi a contar histórias que, ancestralmente, comunicámos e perpetuámos legado cultural.

A história é o pretexto de cada música. Este é, quanto a mim, um dos motivos pelas estruturas musicais do Blues serem tipicamente tão simples, funcionando apenas como tela para tantas histórias e simultaneamente ter um formato familiar e confortável o suficiente para manter a atenção.

As letras estruturam-se tradicionalmente em formato Pergunta-Resposta, facilitando a assimilação da informação – facto curiosamente presente tanto na voz como nos instrumentos solistas.

Claro que estes conceitos são tão humanos que não se limitam ao Blues mas também se alargam ao Fado e às mornas (por ex.). Contudo o Blues influenciou uma enorme parte da música que ouvimos no mundo, talvez porque os conceitos melódicos sejam ainda mais básicos – em torno por vezes de um só acorde – e por se moverem numa escala muito simples que globalmente parecemos intuitivamente entender – a escala pentatónica.

O Blues representa para mim o que é essencial existir numa boa música, não no estilo, mas no foco: história/mensagem, sentimento, acessibilidade, e claro, identidade pessoal.

Portanto, quem diz que o Blues é sempre a mesma coisa, está simplesmente a olhar para o sítio errado.