A greve geral convocada pela Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP) para esta quarta-feira, 3 de junho, deverá ter um impacto significativo em vários setores de atividade, com especial incidência nos transportes, na saúde e na educação. A paralisação surge em protesto contra a proposta de reforma da legislação laboral apresentada pelo Governo e poderá afetar milhares de trabalhadores e utentes em todo o país.
Segundo o secretário-geral da CGTP, Tiago Oliveira, as expectativas de adesão são elevadas, abrangendo tanto o setor público como o privado. O dirigente sindical defende que a greve constitui uma forma de contestação às alterações previstas na legislação laboral e pretende pressionar o Governo a recuar em matérias que a central sindical considera prejudiciais para os direitos dos trabalhadores.
Entre os aspetos mais contestados estão o alargamento dos contratos a termo certo e incerto, o reforço das situações que permitem a contratação temporária, o recurso ao outsourcing, a flexibilização dos horários de trabalho e o banco de horas individual.
Transportes preveem fortes perturbações
O setor dos transportes deverá ser um dos mais afetados pela paralisação. A CP – Comboios de Portugal já alertou para constrangimentos na circulação ferroviária que poderão começar a sentir-se ainda esta terça-feira e prolongar-se até quinta-feira. A empresa divulgou serviços mínimos para algumas ligações urbanas, regionais e de longo curso, mas admite supressões e atrasos em diversos percursos.
Também o Metropolitano de Lisboa anunciou que não haverá circulação entre as 23h00 desta terça-feira e todo o dia de quarta-feira, prevendo a retoma gradual da operação apenas na manhã de quinta-feira.
A greve deverá ainda atingir empresas como a Carris, Transtejo/Soflusa, Fertagus, Metro do Porto, STCP, Metro Mondego e outros operadores de transporte coletivo, abrangidos pelos pré-avisos apresentados pelos sindicatos do setor.
Aviação com cancelamentos e atrasos previstos
Nos aeroportos nacionais, a adesão de trabalhadores de assistência em terra, tripulantes e controladores aéreos poderá provocar atrasos e cancelamentos em diversos voos.
O Sindicato dos Trabalhadores da Aviação e Aeroporto (SITAVA) confirmou a adesão à greve, tal como o Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC). Apesar das perturbações esperadas, serão assegurados os serviços mínimos legalmente exigidos, incluindo voos de emergência, missões de Estado, voos militares e transporte urgente de doentes.
Autoeuropa e indústria aderem ao protesto
No setor industrial, os trabalhadores do Parque Industrial da Autoeuropa aprovaram o apoio à greve geral, prevendo-se uma paragem significativa da atividade no complexo automóvel e em empresas associadas.
Diversas estruturas sindicais da indústria transformadora, energia e ambiente anunciaram igualmente a adesão à paralisação, reforçando a dimensão nacional do protesto.
Hospitais e centros de saúde com serviços condicionados
A área da saúde será outro dos setores mais afetados. O Sindicato dos Médicos do Norte e o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) confirmaram a participação na greve, apontando não apenas a contestação à reforma laboral, mas também preocupações relacionadas com as condições de trabalho e o funcionamento do Serviço Nacional de Saúde.
Embora os serviços mínimos estejam garantidos, prevê-se o adiamento de consultas, exames complementares de diagnóstico e cirurgias programadas em várias unidades hospitalares e centros de saúde.
Educação com impacto nas escolas e universidades
A paralisação deverá também refletir-se no funcionamento dos estabelecimentos de ensino. A Federação Nacional dos Professores (Fenprof) avançou com um pré-aviso de greve para docentes e trabalhadores das escolas, enquanto o Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNES) anunciou a adesão dos professores e investigadores das universidades e institutos politécnicos.
A greve poderá afetar aulas, avaliações, reuniões e outras atividades académicas, provocando alterações ao normal funcionamento de escolas e instituições de ensino superior.
Contestação à reforma laboral
A greve geral surge após o fracasso das negociações entre o Governo e os parceiros sociais em sede de Concertação Social. A CGTP considera que as alterações propostas mantêm os princípios fundamentais do anteprojeto inicial e acusa o Executivo de não ter acolhido as principais reivindicações dos trabalhadores.
Por seu lado, o Governo sustenta que a proposta final incorpora mais de cinquenta alterações face ao documento inicialmente apresentado, incluindo contributos provenientes de organizações sindicais.
Apesar de a União Geral de Trabalhadores (UGT) não ter aderido formalmente à greve, alguns sindicatos filiados naquela central decidiram associar-se ao protesto.
Com adesões confirmadas em vários setores estratégicos, a greve geral de 3 de junho deverá traduzir-se numa das maiores ações de contestação laboral dos últimos anos, com impacto relevante na mobilidade, nos serviços públicos e na atividade económica nacional.



