Imigrantes ajudam no combate ao fogo no interior do país Brasileiros, nepaleses, bangladeshianos e indianos estão entre os rostos que, lado a lado com os portugueses, combatem os incêndios rurais no país. A sua presença é também reflexo das mudanças demográficas que têm transformado o interior de Portugal.
“Na minha vida nunca vi nada assim, nunca pensei que o fogo pudesse ser tão forte e devastador”, contou à Lusa o nepalês Subash, que perdeu a casa num incêndio em Zambujeira do Mar, no concelho de Odemira, há cerca de duas semanas. Subash faz parte da comunidade imigrante que ajudou este território a travar o despovoamento, através do trabalho agrícola.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), o número de estrangeiros residentes em Odemira cresceu de 669 em 2013 para 3.197 em 2023 — um aumento de 377%.
Mais a norte, em Oliveira do Hospital, o crescimento também foi notório: em 2013 viviam no concelho 50 estrangeiros e, dez anos depois, o número subiu para 283 (mais 466%). Um deles é Jewel, natural do Bangladesh, que trabalha como sapador florestal. Contratado há um ano, ajuda a abrir caminho para os bombeiros. “Isto é uma loucura. Não podemos parar. O nosso trabalho é destruir árvores e limpar mato para salvar casas”, explica.
Na Guarda, Sana Gupta e a esposa, também do Nepal, assistiram recentemente a um incêndio que os marcou profundamente. “Foi aterrador. Aqui vivem sobretudo idosos e nós acolhemos duas vizinhas em nossa casa até o fogo acalmar”, recorda Sana, que elogia a beleza e a hospitalidade das aldeias portuguesas.
Já Márcio Christo, brasileiro de 51 anos e adjunto dos bombeiros voluntários de Pataias (Alcobaça), está em Portugal desde 2002. Entrou para os bombeiros em 2011 e nunca esqueceu a força destrutiva das chamas, especialmente quando esteve no incêndio que consumiu o Pinhal de Leiria, em 2017. “O fogo é como um ser vivo, incontrolável por vezes, e temos de o respeitar”, sublinha.
O apoio não se resume ao combate direto. Em Oliveira do Hospital, o indiano Ganga Singh, proprietário de restaurantes, colocou os seus 25 funcionários a distribuir refeições aos bombeiros. “É nossa obrigação ajudar. Não é para agradar, é porque temos de estar juntos nestes momentos”, diz o empresário, que escolheu viver na região depois de se apaixonar pela Serra da Estrela.
Segundo o presidente da Câmara de Oliveira do Hospital, José Francisco Rolo, os imigrantes têm sido fundamentais: “Grande parte dos sapadores são estrangeiros, sobretudo do Indostão ou de África. Trabalham bem e são indispensáveis, porque já não há portugueses suficientes para agricultura, floresta e serviços”. O autarca lembra ainda que o concelho sempre teve tradição de acolhimento e defende que, perante os incêndios, “não há nacionalidades, há união e esforço coletivo”.
Ainda assim, a integração nem sempre é plena. Jewel e Subash lamentam não poder viver com as suas famílias. “Sem os meus filhos, sinto-me incompleto”, desabafa o sapador bangladeshiano. Subash partilha a mesma dor: está há quatro anos em Portugal e sonha com o dia em que poderá trazer a família do Nepal. “Quero ficar aqui. Um incêndio não me fará desistir desse sonho”, afirma.



