O sociólogo e filósofo francês Edgar Morin morreu na sexta-feira, aos 104 anos, anunciou a sua mulher, Sabah Abouessalam Morin. Considerado uma das figuras mais influentes do pensamento contemporâneo, Morin deixa uma obra marcante nas áreas da sociologia, filosofia, epistemologia e teoria da complexidade.
“Até aos seus últimos dias, Edgar Morin manteve-se atento ao mundo, aos outros e aos grandes desafios humanos que alimentaram o seu pensamento”, referiu a viúva num comunicado citado pela agência France-Presse (AFP).
Ao longo de mais de sete décadas de atividade intelectual, Edgar Morin construiu uma reflexão profunda sobre a condição humana, defendendo uma abordagem multidisciplinar do conhecimento e combatendo a excessiva compartimentação das disciplinas científicas.
Apresentando-se como um “caçador de conhecimento”, procurou sempre estabelecer pontes entre diferentes áreas do saber, promovendo aquilo que designou como “pensamento complexo”, uma forma de compreender a realidade através da interligação de fenómenos que habitualmente são analisados de forma isolada.
Para muitos dos seus pares, Morin foi um verdadeiro “pensador planetário”, capaz de antecipar desafios globais e de propor novas formas de interpretar as transformações sociais, culturais, científicas e ambientais.
Entre as suas obras mais influentes destaca-se “O Método”, um vasto trabalho desenvolvido ao longo de décadas e considerado a síntese da sua visão sobre a complexidade do conhecimento e da existência humana. Num dos volumes da obra escreveu: “Quanto mais conhecemos o ser humano, menos o compreendemos”, defendendo uma abordagem integrada das ciências humanas e naturais.
Nascido a 8 de julho de 1921, em Paris, com o nome Edgar Nahoum, era filho único de uma família judaica originária de Salónica, na Grécia. Durante a Segunda Guerra Mundial aderiu à Resistência Francesa contra a ocupação nazi, utilizando o pseudónimo “Morin”, apelido que mais tarde adotaria definitivamente.
Militante do Partido Comunista Francês durante a juventude, rompeu com a organização no final da década de 1950, criticando abertamente os desvios ideológicos e as intervenções soviéticas. Dessa reflexão resultou a obra “Autocrítica”, um dos textos mais emblemáticos da sua trajetória intelectual.
Pioneiro da chamada “sociologia do presente”, interessou-se por temas até então pouco valorizados pela academia, como o cinema, os meios de comunicação, as novas tecnologias e o desporto, contribuindo para alargar os horizontes da investigação sociológica.
Defensor de causas humanistas, laico e de esquerda, destacou-se também pelo apoio à causa palestiniana e pela defesa do diálogo entre culturas e povos.
Ao longo da vida manteve uma relação próxima com Portugal, país que visitou diversas vezes. Numa entrevista à agência Lusa, elogiou a identidade portuguesa, considerando Portugal “um país extraordinário”, pela sua vocação atlântica e mediterrânica, bem como pela sua ligação histórica ao mundo.
Edgar Morin deixa um legado intelectual reconhecido internacionalmente, marcado pela procura incessante de compreender a complexidade humana e pelos contributos decisivos para o pensamento contemporâneo.



