Opinião de Jorge Eiras, Coordenador do Núcleo Territorial da Iniciativa Liberal de Vila Verde e Candidato à Câmara Municipal de Vila Verde.
Ir à padaria, à mercearia ou ao talho não tem de ser um pensamento nostálgico. Pode muito bem ser um ritual sustentável e gratificante para as pessoas.
Todos dizem que passear pelo centro de Vila Verde já não é o que era. As ruas que em tempos fervilhavam com comércio, pessoas e vida, hoje apresentam-se com muitas portas fechadas, algumas montras empoeiradas e uma sensação de vazio difícil de ignorar. O abandono do centro urbano não é apenas um fenómeno estético ou económico: é um reflexo das transformações sociais e demográficas que atravessam o nosso concelho, tendência global das transformações da pós-modernidade. E a pergunta impõe-se: o que poderíamos fazer para mudar?
Nos últimos anos, assistimos à migração silenciosa de muitos jovens para os grandes centros urbanos ou mesmo para fora do país. Procuram legitimamente oportunidades que aqui não encontram: empregos qualificados, salários apelativos e oferta cultural diversificada. Vila Verde continua a ser vista como “terra de dormir” ou de “fim de semana”, um local onde se regressa para a família e o descanso, mas de onde se sai para estudar, trabalhar e viver. Esta fuga de talento não só empobrece o nosso tecido humano, como fragiliza a economia local.
O comércio tradicional, que durante décadas foi a alma da vila, sofre as consequências diretas desta dinâmica. Lojas antigas fecharam portas, mercearias familiares são tendencialmente substituídas por grandes superfícies, e até os cafés – outrora espaços de encontro e partilha – lutam para sobreviver. O resultado é um centro cada vez mais vazio, onde apenas alguns resistem com coragem e resiliência.
Mas a questão não é apenas lamentar o passado: é pensar no futuro. Vila Verde precisa de uma estratégia capaz de revitalizar o seu centro urbano. Isso passa por políticas municipais inteligentes, mas também por um compromisso coletivo da comunidade. Precisamos de atrair empresas e empreendedores que vejam no concelho uma oportunidade, e não uma limitação. É urgente criar condições para fixar jovens, oferecendo habitação acessível, espaços de coworking, eventos culturais e atividades que devolvam vitalidade às ruas, que devem ser limpas, asseadas e seguras.
A mobilidade é outro ponto crítico. Sem transporte público eficaz, muitos vilaverdenses continuam dependentes do automóvel para tudo, o que reforça a centralização de serviços em Braga. Melhorar as ligações, apostar em ciclovias integradas em rede e criar percursos pedonais apelativos e arranjados pode até parecer um detalhe, mas faz toda a diferença na qualidade de vida e na atratividade da vila.
E não podemos esquecer a identidade cultural. O Lenço dos Namorados é um símbolo que corre mundo, mas a pergunta é: estamos a transformá-lo em motor real de desenvolvimento, ou apenas em cartaz turístico de ocasião? O centro de Vila Verde pode e deve ser palco de mercados temáticos que tragam valor, feiras de artesanato contemporâneo e eventos culturais que cruzem a tradição com a modernidade.
Promover o que é nosso pode não ser suficiente, temos de valorizá-lo.
A desertificação é evitável. É um desafio que exige visão, coragem política e participação do cidadão. Cada loja que fecha é mais que uma perda económica: é um pedaço da nossa memória coletiva que se apaga. Se queremos um concelho vivo, capaz de reter os seus jovens e orgulhoso da sua identidade, precisamos de agir.
Vila Verde merece voltar a ter um coração pulsante. Mas para isso, não basta esperar há trabalho a fazer. Cabe a todos – autarquia, empresários, associações e cidadãos – assumir que o futuro da nossa terra depende das escolhas que fazemos hoje. A inércia é a maior barreira; a mobilização, a nossa melhor arma.
Vila Verde consegue muito mais e tem potencial para ir muito mais além sem permitir que os melhores desistam.



