Os preços do gás natural na Europa registaram esta segunda-feira uma forte subida, com os contratos para entrega em abril a dispararem mais de 21%, para cerca de 39 euros por megawatt-hora (MWh), num contexto de crescente tensão geopolítica no Médio Oriente.
Os investidores estão particularmente apreensivos com a possibilidade de interrupção do tráfego no Estreito de Ormuz, por onde transita diariamente cerca de 20% do gás natural liquefeito (GNL) consumido em todo o mundo. Embora a passagem marítima não esteja formalmente bloqueada, começam a acumular-se petroleiros e metaneiros em ambos os lados do estreito, em resultado de receios de ataques e de dificuldades na obtenção de seguros de navegação, segundo informação citada pela Reuters.
O Qatar, um dos maiores exportadores mundiais de GNL, é atualmente um fornecedor-chave da Europa, assegurando cerca de 15% do seu consumo. Um eventual bloqueio prolongado do estreito afetaria igualmente os compradores asiáticos, aumentando a concorrência global pelo gás exportado pelos Estados Unidos.
A situação é agravada pelos níveis relativamente baixos de armazenamento europeu, que se situam em torno de 31%, abaixo dos cerca de 40% registados no mesmo período do ano passado. Analistas alertam que uma subida prolongada dos preços do gás e do petróleo terá impacto direto nos custos para empresas e famílias, além de criar novas pressões inflacionistas sobre as economias.
Também o petróleo acompanha a escalada, com o barril a subir hoje mais de 8%, para acima dos 78 dólares. Os analistas do banco suíço Julius Baer ajustaram em alta as suas previsões, apontando para preços em torno dos 60 dólares por barril dentro de três meses, sublinhando que a evolução dependerá da continuidade das exportações iranianas e da capacidade de compensação por parte de outros produtores.
Para a gestora Allianz Global Investors, os mercados enfrentam um choque relevante. “A implicação imediata é a reavaliação dos riscos extremos, com os preços do petróleo a subirem potencialmente, os ativos de risco a descerem e os ativos de refúgio a beneficiarem”, afirmou o economista-chefe Christian Schulz, acrescentando que muito dependerá da extensão regional do conflito.
A escalada resulta dos ataques dos Estados Unidos e de Israel, seguidos de retaliação do Irão, elevando o risco de um conflito em larga escala na região. Segundo a Allianz GI, a instabilidade política interna no Irão poderá levar os mercados a exigir um prémio de risco mais elevado, pelo menos de forma temporária.
No domingo, a OPEP+ anunciou um aumento da produção em 206 mil barris por dia a partir de abril, mas parte significativa desse crude terá igualmente de passar pelo Estreito de Ormuz, o que limita o efeito estabilizador da medida.
Para Jorge Leon, analista da Rystad Energy, “o efeito mais imediato e tangível a afetar os mercados é a eventual interrupção do trânsito no estreito, impedindo que cerca de 15 milhões de barris de crude por dia cheguem aos mercados”. O especialista acrescenta que, sem um recuo na tensão, os preços deverão continuar a subir de forma significativa.
A gestora Wood Mackenzie recorda que a comparação histórica mais próxima é a crise petrolífera da década de 1970, quando os preços dispararam mais de 300%. Já os analistas do Citi apontam para o Brent a negociar entre 80 e 90 dólares por barril no curto prazo, admitindo forte volatilidade enquanto persistirem os receios sobre a segurança da principal rota energética do mundo.
Entre os setores mais penalizados destacam-se as companhias aéreas, tradicionalmente sensíveis às subidas do crude. Nos mercados financeiros, os especialistas antecipam valorização de ativos de refúgio, como o dólar e o ouro, e pressão sobre as ações, num contexto em que a estabilidade do Estreito de Ormuz se tornou o principal fator de incerteza para a energia e para a economia global.



