Rescaldo das eleições

Por Luís Sousa

Médico

 

Confesso que foi com estupefação que recebi a notícia da obtenção de maioria absoluta por parte do Partido Socialista. Era uma maioria em que poucos acreditavam, nem mesmo o próprio PS. Dado o número de partidos que tem agora assento parlamentar, acharia difícil haver uma maioria absoluta de um só partido, mas a verdade é que ela aconteceu. Aliás, um dos argumentos de Rui Rio assentava na crença de que o PS, a ganhar, nunca conseguiria uma maioria absoluta e, por isso, após as eleições entraríamos no mesmo impasse em que ficamos aquando o chumbo do Orçamento de Estado, a não ser que alguma (ou ambas) das partes aceitasse cedências que antes recusaram. 

Nestas eleições, a grande diferença entre os eleitores de esquerda e aqueles que tendencialmente se identificam com a direita foi a forma como os primeiros aderiram ao voto útil e os segundos não, dispersando o seu sentido de voto pelos vários partidos de direita, com semelhanças em matéria de visão económica, mas com sensibilidades muito diferentes do ponto de vista dos valores humanistas. O receio da esquerda numa viragem à direita com o eventual apoio do CH deu ao PS o brinde de uma maioria absoluta, contrariando todas as expectativas. Por isso, acho importante aos partidos como PSD, IL e até o CDS (se sobreviver a este apagão) demarcarem-se em absoluto do CH, esvaziando a sua utilidade. O PSD fê-lo, mas, parece-me, demasiado tarde.

As maiorias têm coisas boas e outras menos boas. A estabilidade governativa é o aspeto mais positivo. Esta maioria do PS retira-lhe, também, a dependência da extrema-esquerda para governar, podendo, por isso, fazê-lo sem ceder às exigências e caprichos desses partidos o que, à luz de alguém assumidamente de direita, como eu, pode até ser visto como positivo. Por outro lado, temos a má memória do último governo em maioria absoluta do PS que todos sabemos para que rumo levou este país. Desejo, a bem de Portugal, que, desta vez, seja diferente. 

Continuo a ficar abismado com o nível de abstenção dos portugueses em eleições legislativas. Sendo verdade que foi menor do que em anteriores eleições, o valor continua a ser muito elevado e denota um alheamento muito grande do país em relação à importância do voto. Acho que a possibilidade de voto antecipado foi um avanço para combater a abstenção, porém é necessário mais. Tivemos, durante esta pandemia, uma massificação dos processos não presenciais para as mais diversas situações do dia a dia. O voto através da internet com o recurso à assinatura digital certificada não podia ser um caminho?

Jornal O Desportivo

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