O ultramaratonista em bicicleta Tiago Cação vai retomar a ‘Volta a Portugal’ em defesa de uma melhor mobilidade urbana, na sexta-feira, em Guimarães, após uma pneumonia o ter obrigado a interromper o projeto iniciado em junho.
Em causa está o Projeto 278, em que Tiago Cação visita as sedes de concelho dos 278 municípios de Portugal continental com o objetivo de alertar para a necessidade de redefinir a mobilidade urbana, e que termina em Lisboa no final do mês, após 6.000 quilómetros percorridos.
“Tenho visto o aproximar das eleições autárquicas, estamos em plena pré-campanha, e, tirando Lisboa e Porto, a mobilidade não tem entrado nos debates. Espero que o Projeto 278 ajude a que o tema surja nos discursos – e nas ações – dos candidatos de todo o país”, disse o ultramaratonista, num comunicado enviado às redações.
No dia 02 de junho, o ultramaratonista iniciou o percurso no Porto, mas uma pneumonia bilateral obrigou-o a interromper o percurso, tendo sido internado no Hospital Santa Maria Maior, em Barcelos, após ter percorrido 340 quilómetros nas primeiras 29 horas de trajeto e passado por 20 autarquias.
O ciclista “deu entrada com um nível de oxigénio no sangue de cerca de 80%” e foi substituído por Ryan Le Garrec, realizador belga que estava a acompanhar e documentar a viagem de Tiago Cação (e que o irá continuar a fazer nesta segunda fase), que “fez o percurso de bicicleta de cerca de 110 quilómetros entre Barcelos e Guimarães, fazendo chegar as cartas a sete autarquias”.
Assim, o projeto retoma na sexta-feira, pelas 07h00, em Guimarães, junto à câmara municipal, tendo o ativista afirmado que lutou, nos últimos meses, “para conseguir voltar a uma forma física que […] permitisse concluir este desafio: o de apelar para uma profunda redefinição da mobilidade urbana”.
“Sinto-me preparado e parto confiante que este projeto é maior do que a pausa que sofreu”, refere.
No dia 01 de junho, disse à Lusa que “o principal objetivo é a consciencialização, junto das autarquias, da necessidade de que a transição energética inclua principalmente a bicicleta como uma prioridade nas políticas de mobilidade urbana”.
“Eu vou entregar uma carta de recomendação, com um conjunto de 10 medidas, a todas as câmaras municipais, porque em ano de eleições autárquicas é importante que este tema não fique de fora da campanha”, considerou então.
Para Tiago Cação, “os municípios desempenham um papel fundamental na construção de cidades mais sustentáveis e resilientes, e esse trabalho não pode ser feito nem daqui a 10 nem 20 anos, tem de começar já”.
“Temos modelos de cidades completamente obsoletos, e mais uma vez estamos atrasados em relação àquilo que se está a fazer no resto da Europa”, advogou, dando como exemplos “a transformação que Londres sofreu, a transformação que Paris está a sofrer, inclusive Manchester”.
Vindo de Manchester “completamente chocado” pela positiva, Tiago Cação conta que “não havia trânsito, há uma comunhão completa entre os transportes públicos e outras formas de mobilidade urbana, e a cidade foi devolvida às pessoas”, tal como em Barcelona, observou.
Entre as medidas que propõe aos autarcas nas cartas que vai entregar, Tiago Cação destacou a “mais importante”, que lhe “causa confusão” não ser implementada: “não conseguir ver crianças ir para a escola de bicicleta”.
“É uma coisa muito simples, é limitar o tráfego de atravessamento e reduzir as velocidades permitidas nas ruas ao redor da escola”.
Para “convencer os céticos” acerca das vantagens de novos modos de mobilidade que não o automóvel, Tiago Cação questiona “desde quando e porquê é que a bicicleta deixou de ser importante na mobilidade”, pois “não há muitos anos” “a bicicleta era o principal meio de transporte do país, era um motor de desenvolvimento, principalmente nos meios rurais e até nas cidades”.



