O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a elevar o tom da sua política externa ao fixar prazos para avançar sobre a Gronelândia, território autónomo da Dinamarca, e ao admitir uma possível intervenção militar na Colômbia, país aliado histórico de Washington na América Latina. As declarações surgem na sequência do que Trump considera ser o “sucesso” da operação contra a liderança venezuelana, reforçando uma postura intervencionista que tem gerado alarme internacional.
A bordo do Air Force One, no regresso a Washington após um fim de semana em Mar-a-Lago, na Florida, Trump afirmou que os Estados Unidos precisam da Gronelândia “do ponto de vista da segurança nacional” e questionou a capacidade da Dinamarca para garantir essa proteção. “Vamos preocupar-nos com a Gronelândia daqui a dois meses… vamos falar da Gronelândia daqui a 20 dias”, disse, avançando pela primeira vez prazos concretos, ainda que contraditórios, para agir sobre um território pertencente a um aliado da NATO.
Reações imediatas na Europa
As declarações provocaram reações imediatas. O primeiro-ministro da Gronelândia, Jens Frederik Nielsen, respondeu com um firme “já chega”, depois de a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, classificar como “absolutamente absurdo” qualquer tentativa norte-americana de assumir o controlo da ilha. Frederiksen apelou ainda a Washington para que deixasse de “ameaçar o seu aliado histórico”.
A França foi um dos primeiros países a manifestar solidariedade com a Dinamarca. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Pascal Confavreux, sublinhou que “as fronteiras não podem ser alteradas pela força” e que cabe exclusivamente aos gronelandeses e aos dinamarqueses decidir o futuro do território.
Valor estratégico da Gronelândia
A Gronelândia é considerada estratégica devido à sua localização no Ártico, fundamental para a vigilância de movimentações russas e para o controlo de rotas comerciais emergentes. O território possui ainda terras raras e hidrocarbonetos, recursos relevantes para a transição energética, embora em quantidades modestas à escala global.
Para Jennifer Kavanagh, diretora de análise militar da Defense Priorities, as declarações de Trump devem ser levadas mais a sério do que no passado. “Não seria assim tão difícil para os EUA colocar algumas centenas ou milhares de soldados na Gronelândia, e não é claro quem poderia impedir isso”, afirmou à AFP, alertando para os precedentes perigosos que este tipo de ação pode criar num contexto geopolítico em que os EUA já não detêm o mesmo poder relativo de outrora.
Colômbia no centro das ameaças
O endurecimento do discurso estendeu-se à Colômbia. Trump voltou a atacar o presidente Gustavo Petro, acusando-o de envolvimento no tráfico de cocaína e classificando-o como “muito doente”. Questionado sobre uma possível intervenção militar semelhante à realizada na Venezuela, respondeu: “Parece-me bem. Eles matam muitas pessoas”, sem apresentar provas.
As declarações afastam-se do discurso isolacionista e da rejeição de “mudanças de regime” que marcaram a retórica “América em Primeiro” junto da sua base eleitoral.
Resposta dura de Bogotá
Gustavo Petro reagiu de imediato, rejeitando as acusações e exigindo que Trump cessasse o que classificou como calúnias. “O meu nome não aparece nos registos do tribunal”, afirmou, criticando ainda a ação militar dos EUA na região e acusando Washington de ter sequestrado o líder venezuelano “sem base legal”.
Numa mensagem publicada na rede social X, Petro acusou os Estados Unidos de terem protagonizado “o primeiro bombardeamento de uma capital sul-americana na história”, alertando que este facto não será esquecido pelas próximas gerações. O Ministério das Relações Exteriores da Colômbia classificou as ameaças como “interferência inaceitável” e exigiu “respeito”.
Apesar de serem aliados militares e económicos fundamentais, as relações entre Washington e Bogotá têm-se deteriorado desde o início do segundo mandato de Trump, com divergências sobre tarifas, migração e política regional.
Cuba “pronta para cair”
Trump afirmou ainda que Cuba estaria “pronta para cair”, mesmo sem intervenção direta dos EUA, devido à perda do apoio venezuelano. Segundo o presidente norte-americano, Havana terá dificuldades em resistir sem o petróleo fortemente subsidiado proveniente da Venezuela. “Acho que não precisamos de nenhuma ação. Parece que está a cair”, concluiu.
As sucessivas declarações do presidente dos EUA reforçam um clima de tensão diplomática crescente, levantando preocupações quanto à estabilidade regional e ao respeito pelo direito internacional num contexto global cada vez mais volátil.
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