O compositor, pianista, arquiteto e artista plástico José Luís Tinoco morreu na noite de quarta-feira, em Lisboa, aos 93 anos, confirmou esta quinta-feira fonte da família à agência Lusa.
Autor de algumas das canções mais emblemáticas da música portuguesa, como “No teu poema”, “Um homem na cidade” e “Madrugada”, Tinoco destacou-se por uma escrita musical sofisticada, frequentemente comparada à de grandes nomes internacionais como Cole Porter ou Tom Jobim.
A sua obra, amplamente interpretada por músicos como Carlos do Carmo, Mário Laginha, Bernardo Sassetti ou Ivan Lins, é reconhecida pela qualidade harmónica e melódica, aproximando-se do estatuto de “standards” do cancioneiro.
Mas o seu percurso não se limitou à música. Formado em Arquitetura, Tinoco desenvolveu também uma carreira relevante nas artes plásticas, no design, na ilustração e na cenografia. Foi responsável por projetos de arquitetura, como o plano de urbanização do bairro do Rego, em Lisboa, e por diversas criações nas áreas do mobiliário, artes gráficas e filatelia.
Nascido em Leiria, a 27 de dezembro de 1932, cresceu num ambiente culturalmente privilegiado. Filho de uma pianista e de um professor ligado à vida cultural da cidade, iniciou desde cedo uma relação intensa com a música, influenciado pelo jazz, pelo swing e por nomes como Bill Evans e Maurice Ravel.
Ainda jovem, integrou as primeiras formações do Hot Clube de Portugal, tornando-se uma figura ativa na cena jazzística nacional. Em paralelo, construiu uma carreira multifacetada, onde a música, a pintura e a arquitetura coexistiram ao longo de décadas.
No final dos anos 1960, destacou-se no Festival da Canção, tendo vencido a edição de 1975 com “Madrugada”, uma canção evocativa da Revolução de Abril, interpretada por Duarte Mendes.
Ao longo da vida, explorou diferentes linguagens musicais, do jazz ao teatro e cinema, e lançou álbuns como “Homo Sapiens” e “Arquipélago”, consolidando uma obra inovadora e transversal.
Na pintura, evoluiu do neorrealismo para a abstração e, mais tarde, para uma figuração crítica e reflexiva, apresentada em exposições em instituições como a Fundação Calouste Gulbenkian e a Sociedade Nacional de Belas Artes.
Reconhecido pela sua constante reinvenção artística, recebeu em 2014 o Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores. A sua obra foi ainda objeto de várias homenagens, incluindo o documentário “Vida e obra de José Luís Tinoco”, exibido pela RTP.
Figura singular da cultura portuguesa contemporânea, José Luís Tinoco deixa um legado marcado pela exigência estética e pela recusa do facilitismo — um criador que, como dizia, evitava “o fácil” em todas as dimensões da sua vida e obra.



