Texto de Rafael Gonçalves Fernandes
No dia 11 de março assistimos a uma exibição mirabolante na casa da democracia portuguesa. Exibição essa composta pelos interesses partidários e pessoais, por parte daqueles que foram eleitos para representar o povo e os interesses do país.
Devido às notícias e dúvidas suscitadas em torno da empresa familiar que outrora pertenceu ao primeiro-ministro, Luís Montenegro, e após duas moções de censura chumbadas, o executivo governativo decidiu na plenitude dos seus direitos apresentar uma moção de confiança ao Parlamento, onde era necessária a aprovação pela maioria dos deputados para que o executivo continuasse a governar. Transmitindo dessa forma um voto de confiança ao governo.
Num ato de teimosia e cobardia, atendendo unicamente aos interesses partidários e pessoais, quase todos os partidos votaram contra a moção de confiança, exceto o PSD, CDS e IL, atirando de novo o país para uma crise política. De acordo com a Constituição da República Portuguesa, o chumbo da moção de confiança dá origem a queda do governo.
Perante este cenário, o Presidente da República ouviu todos os partidos com assento parlamentar, assim como o Conselho de Estado, o que resultou na dissolução da Assembleia da República e convocação de eleições legislativas para o próximo dia 18 de maio.
Em virtude de ganhar mais poder, os partidos continuam a deixar os interesses dos portugueses para segundo plano. Os problemas reais do país não são alvo de discussão, não há grande preocupação com matérias tão importantes no dia a dia das pessoas, como a saúde, economia, educação, infraestruturas, entre outras. Se até então algum trabalho estava a ser desenvolvido nesse sentido, com a queda do governo tudo fica novamente em banho-maria. E até que um novo executivo tome posse e comece a governar já vamos a meio do ano.
Em quase 51 anos de democracia, apenas seis dos 16 governos eleitos terminaram o seu mandato. E quando falamos em governos minoritários apenas dois de oito conseguiram sobreviver na totalidade do seu mandato. Enquanto as opções de voto aumentam, a participação política diminui.
Nos últimos anos o povo português tem sido constantemente chamado às urnas para eleger o primeiro-ministro, a última vez foi no dia 10 de março de 2024, a próxima vez seria suposto ser em meados de 2028. Até quando iremos assistir à irresponsabilidade dos partidos que ocupam a Assembleia da República? Até quando seremos reféns desta crise política? Até quando iremos assistir a esta triste realidade?
É urgente a captação de políticos competentes, que assumam os cargos não como profissão, mas como um dever de participação cívica, que coloquem os interesses do país acima de todos os outros. É necessário captarmos pessoas íntegras, honestas, idóneas e com um passado limpo.
Como dizia Francisco Sá Carneiro, “primeiro Portugal, depois o partido, por fim, a circunstância pessoal de cada um de nós”.
O país não pode continuar neste impasse de crises políticas constantes. Os portugueses têm de exigir mais, porque, ao fim ao cabo, somos todos nós que pagamos a conta. E que por sinal é elevada.