O secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, desafiou esta segunda-feira o primeiro-ministro e presidente do PSD, Luís Montenegro, a assumir uma “posição mais clara” acerca da segunda volta das eleições presidenciais, defendendo que, “entre a democracia e aqueles que atentam contra a democracia, não pode haver neutralidade política”.
“Do meu ponto de vista, [Luís Montenegro] deve ter uma posição mais clara sobre se está do lado dos valores constitucionais e do lado dos valores democráticos, ou se está do lado daqueles que atentam contra os valores constitucionais e contra os valores democráticos”, disse o líder do PS, na Póvoa de Lanhoso, onde está a participar nas comemorações dos 30 anos da Associação de Apoio aos Deficientes Visuais do Distrito de Braga.
Segundo José Luís Carneiro, que garantiu “estranhar muito” a posição de Montenegro de não apoiar qualquer candidato na segunda volta, caso houvesse um confronto entre André Ventura e Luís Marques Mendes, que foi o candidato apoiado pelo PSD, “não haveria dúvidas” da parte do PS em recomendar o voto em Marques Mendes.
“Felizmente, há no seu partido [PSD] vozes que já assumiram as suas posições, é o caso do presidente da Câmara Municipal de Porto [Pedro Duarte], que já declarou o apoio ao António José Seguro, é o caso de Poiares Maduro, um social-democrata, que também já declarou o seu apoio ao António José Seguro, e há outros que apoiaram mesmo a Iniciativa Liberal e o candidato da Iniciativa Liberal e também já declararam o seu apoio ao António José Seguro”, enalteceu.
Em função disso, o líder socialista disse esperar que o apoio a Seguro “seja um movimento em bola de neve que venha a mostrar que a sociedade portuguesa continua maioritariamente a defender os valores que permitem viver em comunidade nacional”.
“NÃO HÁ CRISTIANISMO DA EXCLUSÃO”
José Luís Carneiro vincou que António José Seguro “representa os valores democráticos e os valores constitucionais” e salientou que a segunda volta das eleições presidenciais, a disputar com André Ventura, vai pôr em confronto “dois perfis absolutamente diferentes, um perfil de equilíbrio e de ponderação, e do outro lado um perfil de imponderação, um perfil de defesa das instituições e um perfil que atenta contra as instituições”.
“Julgo que todos se recordam da visita do Presidente do Brasil a Portugal e das ofensas que foram feitas no coração da democracia portuguesa ao Presidente do Brasil, todos se recordam que há poucos dias esse candidato esteve em Espanha a ofender o primeiro-ministro de Espanha”, acusou Carneiro, dirigindo-se a André Ventura.
Lembrando o facto de o candidato presidencial apoiado pelo Chega ter reagido aos resultados deste domingo à saída da missa na Igreja de S. Nicolau, em Lisboa, José Luís Carneiro foi ainda mais incisivo nas críticas e acusou Ventura de “estimular o ódio, a violência e a disrupção das instituições”.
“Vi que há mesmo um candidato que se quer arvorar dos valores do cristianismo, mas cristianismo que eu conheça só há mesmo o cristianismo da compreensão e da inclusão. Não há cristianismo da exclusão, da excomunhão e da incompreensão, da intolerância e da violência. Não há”, apontou o líder socialista.
Para o secretário-geral do PS, as palavras de André Ventura “parecem palavras mais próprias dos fariseus do que propriamente dos cristãos que defendem os valores católicos da compreensão, do humanismo, da inclusão e de uma sociedade pacífica e segura”.
“Há um candidato do campo democrático, que defende as instituições democráticas, que defende o Estado de Direito, e há um candidato que já disse que queria três Salazares. Não fui eu que o disse, foi ele que o disse, que queria três Salazares. Sabemos bem o que representou o Salazar, na fome que havia no país, naqueles que não tiveram a oportunidade de ir à escola, gerações que se perderam”, reiterou José Luís Carneiro.
ELEIÇÕES INTERNAS
Questionado sobre se a intenção de marcar eleições internas no PS não é uma forma de aproveitar a vitória de António José Seguro, o secretário-geral socialista disse que “são questões internas que estavam decididas há muito tempo, só que há um calendário de convocatória”.
“O presidente do partido já formulou essa convocatória, mas o mais importante é que no próximo sábado reúna a Comissão Nacional do Partido Socialista com o objetivo de avaliar os resultados eleitorais e mobilizar todo o partido para a segunda volta”, apontou.
Perante a insistência dos jornalistas, nomeadamente sobre se esta não será uma forma de reforçar a sua própria liderança, José Luís Carneiro fez mira ao Chega: “Há partidos que são democráticos, é o caso do Partido Socialista. Há até um partido que, por aquilo que se sabe, está a funcionar de forma irregular, para não dizer ilegal”.
“O PS tem estatutos, cumpre a democracia, mesmo na pandemia realizou eleições para as federações e para as concelhias, e sendo um partido democrático tem que realizar eleições, porque somente realizando eleições e sendo um partido democrático na sua vida interna é que pode dar o exemplo para a vida em sociedade. E é isso que se passa”, garantiu Carneiro.



