Os violentos incêndios que continuam a devastar a região francesa da Gironda estão a ser marcados pelo aparecimento, pela primeira vez de forma significativa em França, das chamadas nuvens pirocumulonimbus (pyroCb), vulgarmente conhecidas como “nuvens de fogo”.
Este fenómeno meteorológico extremo é gerado por incêndios florestais de grande intensidade e constitui um dos maiores desafios para os bombeiros, uma vez que pode alterar rapidamente o comportamento das chamas, criar ventos próprios e até originar relâmpagos capazes de desencadear novos focos de incêndio.
Segundo a NASA, as pirocumulonimbus são um fenómeno severo ainda pouco compreendido e difícil de prever. Estas nuvens resultam da enorme quantidade de calor libertada pelos incêndios, que faz subir rapidamente o ar quente carregado de fumo e vapor de água até grandes altitudes, formando estruturas semelhantes às nuvens de tempestade.
A agência espacial norte-americana descreve mesmo estas formações como o “dragão cuspidor de fogo das nuvens”, alertando para o facto de poderem injetar enormes colunas de fumo na estratosfera. Essas partículas podem permanecer na atmosfera durante mais de um ano, influenciando a circulação atmosférica, agravando o buraco na camada de ozono sobre a Antártida e afetando o equilíbrio climático global.
Fenómeno já conhecido em Portugal
Embora o aparecimento destas nuvens seja relativamente frequente em regiões como a Califórnia e a Austrália, Portugal também conhece este fenómeno desde os grandes incêndios de Pedrógão Grande, em 2017.
Em França, porém, trata-se de uma situação praticamente inédita. Apenas em 2022 foram observadas formações semelhantes na região de Bordéus, mas durante um curto período.
O investigador Jean-Baptiste Filippi explica que o processo começa com uma pequena nuvem cúmulo, formada pela condensação do vapor de água. À medida que o calor libertado pelo incêndio aumenta, essa nuvem evolui para um cumulonimbus, desenvolvendo fortes correntes ascendentes que podem ultrapassar os 150 quilómetros por hora.
Apesar de gerar chuva, esta evapora-se antes de atingir o solo devido às temperaturas extremamente elevadas.
Um fenómeno imprevisível
Para o porta-voz da Federação Nacional dos Bombeiros de França, Eric Brocardi, trata-se de um cenário “sem precedentes” no país.
O responsável explica que o calor extremo produzido pelo incêndio cria uma coluna ascendente que encontra massas de ar mais frio em altitude, originando a nuvem de fogo. No seu interior formam-se descargas elétricas que podem atingir zonas ainda não queimadas e provocar novas ignições.
Além disso, estas nuvens desenvolvem um sistema meteorológico próprio, alterando a direção e intensidade do vento, o que dificulta significativamente o combate às chamas.
Alterações climáticas favorecem o fenómeno
Os especialistas consideram que o aumento da frequência das ondas de calor, associado às alterações climáticas, está a criar condições cada vez mais favoráveis ao aparecimento deste tipo de fenómenos extremos.
Jean-Baptiste Filippi sublinha que a combinação de sucessivas ondas de calor com condições atmosféricas propícias constitui um cenário cada vez mais frequente e difícil de prever.
A imprevisibilidade destas nuvens representa um enorme desafio para os serviços meteorológicos e para os operacionais no terreno, uma vez que o seu desenvolvimento depende da evolução do próprio incêndio, tornando praticamente impossível antecipar com exatidão quando e onde poderão formar-se.
Entretanto, o incêndio que atinge a região da Gironda mantém-se estabilizado, mas ainda não controlado, depois de obrigar à evacuação de cerca de 220 mil pessoas. As autoridades francesas receiam que a nova vaga de calor prevista para os próximos dias possa voltar a intensificar a propagação das chamas, numa operação que continua a mobilizar milhares de bombeiros e meios internacionais de combate aos incêndios.



