Uma nova vaga de calor está a intensificar-se em vários países da Europa, poucos dias após episódios extremos que já provocaram vítimas no continente, avança a Euronews. Portugal, Espanha, França, Itália e vários países da Europa Central e de Leste preparam-se para vários dias com temperaturas próximas ou superiores a 40 °C, num cenário acompanhado por um fenómeno cada vez mais relevante: as chamadas noites tropicais.
Em Espanha, a agência meteorológica AEMET emitiu avisos amarelos devido a uma subida acentuada das temperaturas e avisos laranja em algumas zonas do nordeste, devido também a chuva e trovoadas. Cidades como Sevilha, Saragoça e Córdova deverão estar entre as mais afetadas, com valores próximos dos 40 °C já na próxima semana.
O impacto não se limitará às horas de maior insolação. As previsões apontam para noites tropicais — quando as temperaturas mínimas não descem abaixo dos 20 °C — reduzindo a capacidade de recuperação do organismo e aumentando a exposição contínua ao calor.
Em França, que registou várias mortes durante a recente onda de calor, os termómetros podem atingir os 39 °C no sudoeste, incluindo a região de Bordéus. Já em Itália, meteorologistas alertam para a chegada de uma massa de ar quente proveniente do Norte de África, com máximas que poderão chegar aos 40 °C em cidades como Florença.
Em Portugal, a subida das temperaturas deverá sentir-se a partir do próximo sábado, com valores que podem atingir os 40 °C ou mais no interior. A meteorologista Maria João Frada já tinha alertado que o calor mais intenso deverá concentrar-se no vale do Douro, vale do Tejo e interior do Alentejo, enquanto a faixa costeira poderá registar máximas até cerca de 35 °C.
Na Europa Central e de Leste, países como Bulgária, Roménia e Hungria poderão também registar valores entre 36 °C e 38 °C, à medida que uma crista anticiclónica se instala sobre a região.
Especialistas alertam que este episódio não representa apenas uma vaga de calor isolada. Em declarações à Euronews Earth, a investigadora Ionna Vergini sublinha que o padrão atmosférico apresenta características de bloqueio prolongado, compatível com o que descreve como um “novo normal” associado às alterações climáticas.
A especialista alerta ainda para a vulnerabilidade das infraestruturas europeias, pouco adaptadas a episódios prolongados de calor extremo, referindo impactos potenciais em redes elétricas, transportes e edifícios.
Os efeitos já se fizeram sentir em alguns países. Em Turim, no norte de Itália, registaram-se falhas no abastecimento elétrico durante recentes episódios de calor, enquanto em França operadores ferroviários alertaram para possíveis perturbações nos serviços devido às altas temperaturas.
O fenómeno das noites tropicais é apontado como um dos aspetos mais preocupantes. Segundo especialistas, o calor persistente durante a noite pode ser mais perigoso do que os picos diurnos, uma vez que impede o descanso térmico do corpo humano. Em ambientes urbanos, o efeito de ilha de calor agrava ainda mais a situação, retendo o calor entre edifícios e superfícies artificiais.
A comunidade científica tem vindo a associar o aumento da mortalidade durante ondas de calor não apenas aos valores extremos durante o dia, mas sobretudo à sucessão de noites quentes, que impedem a recuperação fisiológica e aumentam o risco cardiovascular.
Este novo episódio confirma uma tendência crescente na Europa: já não são apenas os picos de temperatura que preocupam, mas a duração prolongada do calor e a ausência de alívio noturno, que transformam o fenómeno num desafio estrutural para a saúde pública e para a resiliência das cidades.



