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Frente-a-frente contra o covid-19, Braga luta contra (novo) confinamento – Mito, loucura e pioneirismo

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“Para não nos arriscarmos todos a morrer, o combate a uma pandemia não pode ser feito exclusivamente a partir do Governo Central. O Poder Local, as autarquias, têm, elas próprias, definir estratégias inovadoras e com uma boa dose de pioneirismo”, diz a socióloga luso-brasileira Ruth Martin.

A residir em Braga enquanto termina um trabalho sobre estratégias de valorização de territórios de baixa densidade populacional, a investigadora considera que aquele “princípio básico” é valido quer para combater a desertificação e o envelhecimento do interior, quer para confrontar um “vírus inteligente” como o covid-19.

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Ruth Martin admite ter ficado “muito surpresa” quando ouviu que Braga tinha encerrado “todas as lojas não essenciais [horário zero]” em meados de Março.

“Uma decisão deste tipo é possível, e mesmo frequente, no Brasil ou nos Estados Unidos que, como Estados federais, permitem que cada estado tenha alguma autonomia para enveredar por políticas que nem sempre são as mesmas dos governos federais. Não é o caso de Portugal. Daí que o município, ao ir mais além do que o Governo em Lisboa, me apanhou de surpresa”, recorda.

Ao “arriscar” pelo encerramento do comércio não essencial, acrescenta, a Câmara optou precisamente por uma estratégia inovadora, mas igualmente pioneira, “ao apressar uma decisão que o Governo só tomaria dias depois”.

A investigadora afirma que a medida por ser “drástica” podia provocar protestos dos sectores afectados e com “uma dose forte de corporativismo”, como é o comércio e a restauração.

“Não me lembro que terem ocorridos protestos significados desses sectores da economia e da população”, diz, o que a leva a concluir que o executivo municipal “leu bem a situação”, respondendo de “forma adequada”, “proporcional ao risco que se vivia na altura” ao mesmo que tempo que “alivia o peso que o medo exercia já sobre a maioria da sociedade”.

Ruth Martin confessa não conhecer “em pormenor” a composição partidária/ideológica da autarquia. “Pelo que me foi explicado, fiquei com a percepção de que houve união entre as forças [políticas] que normalmente se opõem e que as decisões foram consensuais”. Chama-lhe “pacto anti-pandemia”.

Exército, não obrigado

Entre as medidas “pioneiras” de que fala a luso-brasileira, há outra que Altino Bessa, vereador da protecção civil, insiste em sublinhar.

Trata-se da escolha dos Bombeiros Sapadores para desinfectar os lares ‘atacados’ pelo novo coronavírus em detrimento do Exército.

A escolha é justificada pela necessidade de agilizar o processo, encurtar a sua duração e, especialmente, evitar a evacuação das instituições.

Altino Bessa conta que quando a protecção civil municipal se confrontou com a necessidade de desinfectar os lares “percebemos –apesar da nossa inexperiência-  das dificuldades que teríamos de as articular com as Forças Armadas, que eram que estava a fazer as higienizações no resto do país”.

“Fomos a primeira autarquia a mobilizar os bombeiros para a desinfecção, ala a ala, dos lares sem recorrer ao Exército”, assegura.

“A nossa Companhia de Bombeiros Sapadores foi pioneira no país”, frisa, assegurando que “o exemplo acabou por ser replicado por todo o país”.

Em Abril, recorda Bessa, “Braga foi muito castigada pelo problema dos lares com dezenas de pessoas infectadas, mas conseguimos dar as respostas adequadas sempre com o recuso aos bombeiros sapadores”.

O vereador diz que a intervenção do Exército, que tem sediado no cidade o Regimento de Cavalaria n.º6, obrigaria à evacuação dos idosos.

“Num dia desinfectariam uma ala e no dia seguinte outra. Entretanto, os idosos, muitos deles doentes e acamados, teriam que ser transferidos para um outro local”, explica. Foi então decidido adquirir equipamento, dar formação ao corpo de bombeiros municipais e entregar-lhes “a difícil tarefa de desinfectar os lares”.

“Adquirida esta agilidade foi possível proceder as higienizações e desinfecções ala a ala muito mais rapidamente”, conta, voltando a referir que a Câmara de Braga “foi a primeira a optar pela solução bombeiros”.

A medida que uma ala era desinfectada, os utentes iam sendo deslocados para outra. “Chegamos a ter idosos resguardados do covid-19 em refeitórios e salas de estar”. Ou seja: “criámos lares dentro de lares”.

Bessa dá como exemplo o que aconteceu no Lar de Santa Cruz e no Asilo de S. José, “onde conseguimos seccionar espaços, separar as pessoas e mante-las dentro das instituições sempre com o apoio dos bombeiros”.

O processo contou com o apoio da delegação de Braga da Cruz Vermelha Portuguesa, na preparação dos espaços e na cedência de camas.

“Tivemos centenas de infectados entre utentes e funcionários, mas conseguimos em parceria com a autoridade de saúde local e a Cruz Vermelha evitar evacuações”, volta a sublinhar.

A escolha dos bombeiros evitou, resume, que “os utentes fossem parar a hotéis, base aéreas, quarteis ou hospitais como estava a acontecer por todo o país”.

Não há bela sem senão…

Mesmo destacada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) no que diz respeito às políticas públicas de resposta ao novo coronavírus, a gestão da crise pela autarquia bracarense não está isenta de criticas.

A primeira é apontada por Ruht Martin. A socióloga diz que a presença da Polícia Municipal fora do centro histórico da cidade “foi total” e “inexplicável”. Estende a mesma crítica à PSP e GNR.

Assegura que nas suas deslocações ao Minho profundo e ao Douro Interior não viu nos 45 dias que durou que o estado de emergência fosse respeitado. Nas entrevistas de campo ouviu os mais idosos, a população de maior risco, a desvalorizar a pandemia. “Já passei por muito e não vai ser um vírus que me vai deitar agora abaixo”, foi o discurso, com algumas variantes, que mais gravou.

“O que me deixou surpreendida foi que ouvia e via o mesmo nos arredores de Braga. Pessoas de idade a passear pelas ruas ou apanhar sol como não existisse qualquer perigo. Me incomodava muito ver isso”, conta. “Fez-me lembrar os brasileiros e o nosso eterno haja Deus”, ironiza.

Na verdade, quem tenha andado pelos subúrbios da Cidade dos Arcebispos ou pelas freguesias mais rurais encontrou as mesmas imagens que a socióloga: idosos reunidos em adros de igreja (encerradas), em bancos de jardim ou passeando nos dias mais amenos indiferentes à situação pandémica.

A Polícia Municipal concentrou a sua acção nelo centro da cidade, fazendo circular as sus viaturas com os já celebres apelos “Fique em Casa”. Já o policiamento fora desta zona foi inexistente ou muito reduzido, o que pode ser explicado com a falta de efectivos.

Posteriormente, durante os estados de calamidade e de contingência, foram os jovens a ocupar o espaço deixado pelos mais velhos, que, entretanto, pareciam ter-se convencido do real perigo do covid-19.

Tanto nessa altura, como agora que o estado de calamidade foi reposto, a desobediência à proibição de ajuntamentos e do consumo de álcool na via pública são tão frequentes que deixaram de ser notícia.

É certo que a PSP, a GNR e a Policia Municipal conseguiram desmobilizar alguns destes encontros. A maioria, contudo, escapou ao radar das autoridades. A juventude, agora responsável pela grande percentagem da ocupação de camas covid-19 nos hospitais, viu muitos dos seus encontros nas margens rio Este, em Braga, no Parque Radical, em pelo menos num parque de merendas de uma freguesia ou o ajuntamento que durante um par de horas se manteve em plena Praça da Justiça, nas ‘barbas’ da 2.ª esquadra da PSP, a ‘passar ao lado’ das forças de segurança, Polícia Municipal incluída.

O cirurgião João Franklin Gonçalves, a exercer actualmente no Funchal, na Ponte da Barca e no Hospital Lusíadas Porto, depois de uma passagem pelo Trofa Saúde Braga Sul (onde se registou o primeiro caso de covid-19 entre profissionais de saúde em ambiente hospitalar) partilha a mesma opinião da investigadora luso-brasileira.

“É verdade que houve uma boa articulação em Braga entre às várias entidades – Câmara, ACES, Hospital, Universidade e Cruz Vermelha -, mas a população deixou bastante a desejar”, diz, considerando que a sua opinião é validada por uma “visão territorial alargada” que possui precisamente por exercer em diferentes zonas do país.

“A população de Braga foi irresponsável e em tudo igual ao do resto do país quer na altura do estado de emergência, quer agora”, lamenta o autor do programa para a saúde com que Durão Barroso se apresentou às eleições legislativas de 2002, que venceu.

Outra crítica à actuação da autarquia parte de uma jovem farmacêutica. “Ainda não consegui entender as razões por que a Câmara não aceitou o protocolo com o Ministério da Saúde que permitia que os maiores de 65 anos serem vacinados gratuitamente nas farmácias”.

O protocolo, desenhado para evitar enchentes nos centros saúde, prevê que sejam as autarquias aderentes as responsáveis pelo pagamento às farmácias do acto de administração da vacina.

A farmacêutica critica ainda que o Governo tenha “arrebanhado” todas as vacinas, deixando as farmácias com listas de espera para vacinações com “centenas de nomes” que “não vão ser vacinas na altura devida” porque “as vacinas não nos chegam”.

O resultado, lamenta, “é o que se vê: idosos amontoados nas unidades familiares de saúde de Braga com os números da pandemia a crescer e nós, farmacêuticos, sem pudermos fazer nada”.

O português não é idiota nem estúpido

Confrontados com as imagens de cidades desertas e auto-estradas sem viaturas, o cirurgião e a socióloga concordam. “Essas imagens retratam o país urbano. Nas sombras dessas fotos e vídeos você vê uma outra realidade totalmente diferente; gente que não parou porque o Governo, as câmaras, as juntas de freguesia ou o senhor padre mandaram”, atira Ruth Martin.

A socióloga encontra, no entanto, nesta imagem “idílica em pandemia” um par de vantagens.

“Serviu para exportar para fora do país a ideia de um milagre português em contraponto com as realidades desesperadas que as televisões mostravam do Brasil, EUA ou do Peru”, refere, acrescentando que foi Marcelo o principal “exportador” de uma imagem que não “era de todo verdadeira”.

Outra vantagem deste “negócio da imagem” foi o de “estimular um sentimento de orgulho no povo, que de facto estava precisado, apesar dos números serem trágicos para a dimensão do vosso país”.

Ruth dá nota de ‘Bom’ ao Governo português na forma como está a gerir a crise pandémica, opinião que coincide com a sondagem de 31 de Outubro da TSF/JN (https://www.jn.pt/nacional/infografias/a-avaliacao-dos-portugueses-ao-presidente-ao-governo-e-a-oposicao-12984015.html) que mostra que 45% dos portugueses (menos 3 p.p. em relação a Setembro) considera ‘Boa’.

Avisa, todavia, que atribuir a culpa do aumento dos casos de desobediência às orientações das autoridades de Saúde e da Protecção Civil como a que se assistiu na Nazaré, se deve aos sinais “pouco claros e contraditórios” (público na F1 e proibição de circulação entre concelhos nos entre 30 e 3 de Novembro) da DGS é uma “leitura totalmente errónea do ponto de vista sociológico” e “uma loucura antropológica”.

“Este incumprimento resulta de pequenas revoltadas contra as restrições. O português está farto de viver enjaulado”, diz.

“Insistir nessa imagem de um povo a cumprir o que lhe ordenaram é, como já expliquei, um mito, e um mito perigoso”, alerta.

Na sua perspectiva, não são as tais “comunicações contraditórias” de que é acusado o Governo pela oposição à direita, que explicam estes comportamentos “loucos”.

“Afirmar que as contradições da Graça Freitas –que existem, de facto – são culpadas, é tratar o povo português como idiota e estúpido. Os portugueses conhecem de cor e salteado todos os comportamentos que devem ter, e se não os cumprem, é porque não estão dispostos a fazê-los. Ponto”, defende.

E deixa outro aviso: “quem faz esse discurso está a enterrar a cabeça na areia como a avestruz, não quer entender que os portugueses estão cansados e fartos de conselhos, restrições e números”.

Ruth Martim conclui com um último alerta. “Só cá em Portugal me apercebi que o português é resiliente e aguenta tudo até que um dia usa toda a sua resiliência e toda a sua capacidade de sofrimento para dizer não! e revolta-se”, afirma, apontando as manifestações anti-restrições que acontecem por todo o mundo.

E a montanha pariu em rato

A dia 31 de Outubro, o Governo alargou a lista de concelhos classificados como sendo de alto risco, definidos por terem 240 casos de covid-19 por cada 100 mil habitantes acumulados nos últimos 14 dias. Braga está na lista.

A (longa) comunicação de António Costa acabou por manter tudo praticamente como estava e ficou muito aquém do que os ‘sanitaristas’ pretendiam.

Todas as possibilidades que estiveram no dia anterior na mesa nos encontros com os líderes partidários – recolher obrigatório e confinamentos parciais, por exemplo – acabaram por desaparecer em poucas horas. É caso para dizer que a montanha pariu um rato.

Mais uma vez, com a habilidade política que lhe é reconhecida, o primeiro-ministro atira a ‘batata quente’ de novas restrições para as mãos do Presidente da República.

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