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Frente-a-frente contra o covid-19, Braga luta contra (novo) confinamento

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“No início da pandemia, Braga viveu momentos muito difíceis”, diz Altino Bessa com gestos largos, acentuando as palavras. “Os meses de Março e Abril foram mesmo dramáticos”, confessa o vereador da Protecção Civil. Hoje, quando os números do covid-19 duplicam a cada duas semanas, a pergunta que todos fazem é: “o que fazer?”.

A esta pergunta, o Conselho de Ministros responde este sábado, 31 de Outubro, num momento em que, nas palavras de Marta Temido, titular da pasta da Saúde, a situação é “grave e complexa”.

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A declaração de um novo estado de emergência está sobre mesa do Conselho, mais não seja para dar enquadramento legal que lhe permita pôr em prática medidas mais restritivas. É quase certo que o Executivo socialista optará por um caminho de compromisso entre aquele que é reclamado pelos chamados ‘sanitarista’ –  que defendem o aumento das restrições – e os ‘desconfinadores radicais’, os que sustentam, entre muitos outros argumentos anti-confinamento e restrição, que as disposições já decretadas, nomeadamente o uso obrigatório da máscara em todo o espaço público e a proibição de circulação entre concelhos são ilegais ou mesmo inconstitucionais.

O confinamento parcial das áreas mais fustigadas pela pandemia covid-19, o recolher obrigatório, também parcial, com encerramento do comércio e restauração às 22h00, o tele-trabalho e o regresso a casa dos estudantes a partir do 9.º ano para aulas via internet ou em regime misto, como quer a Associação Nacional dos Dirigentes Escolares, são os caminhos, em pacote ou separadamente, que António Costa escolherá.

Depois do Conselho Europeu e da Comissão Europeia terem decido, esta quinta-feira, se bem que de forma informal, não fechar fronteiras e não paralisar totalmente a actividade económica como aconteceu na passada Primavera, o Governo deixará de fora a opção mais radical e mais restritiva da liberdade – o confinamento geral-, um panorama que tanto António Costa como o Presidente da República querem retirar da equação do combate ao SRS-CoV-2.

Um confinamento mais ‘musculado’ pode, todavia, acontecer em Dezembro.

É sob grande pressão dos números da pandemia que o Conselho de Ministro reúne. Recorde-se que esta sexta-feira, dia 30, o país ‘bateu’ um novo recorde de novos casos, de vítimas mortais e ainda de internados.

O boletim da DGS reportava mais 40 mortos, ultrapassando os 37 de óbitos de 3 de Abril, e 4.656 infectados, mais 432 nas últimas 24 horas. Já o número de doentes internados somava mais 93, totalizando 1.927, e mais seis doentes estavam nos cuidados intensivos, num total de 275.

Emergência e confinamento ‘à moda de Braga’

Braga, ao contrário do que acontece com Esposende, Vila Verde, Famalicão, Guimarães, Vizela, Póvoa de Lanhoso e Fafe (que decretou esta quinta-feira o estado de emergência municipal), não constava na lista elaborada dos 72 concelhos portugueses com maior incidência de covid-19 entre os dias 5 e 19 de Outubro, tendo por base dados da Direcção-Geral da Saúde (DGS) e estimativas de população do Instituto Nacional de Estatísticas (INE), elaborada pelo semanário Expresso.

Uma semana depois, o território bracarense mantinha-se ausente da lista dos 10 concelhos com maior diferença entre o número de casos registados entre os dias 19 e 26, apesar de ter uma população superior a quatro deles (Guimarães, Lousada, Paços de Ferreira e Matosinhos).

“Prevenir, conter, assegurar a protecção aos mais fragilizados, sobretudo os mais idosos, foram as vertentes do combate ao novo coronavírus logo no início”, recorda agora Altino Bessa. “É esta estratégia que vai continuar a prevalecer até que comece a circular uma vacina ou tratamento eficaz para o covid-19”, diz ao jornalista.

Na altura, recorda o vereador, foi dado um particular enfoque os lares, isto quando a directora-geral da Saúde, Graças Freitas, ainda dizia que os idosos deviam ser visitados pelos familiares “uma ou duas, as vezes que se quiser” porque “necessitam de carinho e amor”, uma declaração completamente desajustada em contexto de pandemia como demonstrava a mortandade que grassava em lares espanhóis, italianos e franceses. O resultado foi o que se viu.

Não era a primeira vez que Graças Freitas surpreendia com declarações e orientações que pareciam sair de um mau filme de ficção cientifica. Para a história fica a garantia que a hipótese de o vírus entrar em Portugal era “diminuta”, como se o novo coronavírus precisasse de visto ou passaporte para cruzar a fronteira para Portugal. Uma afirmação ao (pior) estilo de Donald Trump, o presidente dos EUA.

Braga não de deixa contaminar por este discurso aparentemente desorientado de uma responsável pela saúde que por vezes permitia que a agenda política do Governo ‘infectasse’ o que é suposto ser uma postura exclusivamente técnica.

Assim, a 24 de Abril, tinham sido testados mais de 1.800 utentes e profissionais de 32 instituições do concelho, na sua esmagadora maioria através do programa de rastreio promovido pelo município. Os resultados laboratoriais identificaram na altura 412 pessoas com testes positivos ao covid-19. A despistagem a todos os lares e instituições particulares de solidariedade social (IPSS’s) ficaria concluída dias depois.

Antes, ainda em Março, a Câmara montava um Centro de Rastreio para despistagem no parque de estacionamento do Altice Forum Braga, em modelo ‘drive thru’, com capacidade para 150 testes/dia. Em instalações cedidas pelo Grupo DST, abria outra Unidade de Rastreio Covid-19 em frente do Centro de Saúde do Carandá.

As ‘bombas’

Contudo, a decisão que mais deu que falar, e que surpreendeu um país que ainda debatia o uso da máscara em espaço público e o controle da temperatura nos aeroportos nacionais, foi decreto do ‘horário zero’ em Braga. Com a concordância de todas as forças políticas e da associação comercial local, o executivo camarário, de maioria PSD/CDA-PP/PPM, confinou a cidade três dias antes de Marcelo declarar o estado de emergência.

Com esta decisão, era restringido o horário de funcionamento de todos os estabelecimentos de comércio e serviços à excepção de farmácias, parafarmácias e espaços de venda de bens alimentares de primeira necessidade, uma espécie de estado de emergência ‘à moda de Braga’.

O argumento usado pelo executivo presidido por Ricardo Rio para justificar a medida, mais que uma crítica à actuação do Ministério da Saúde e da DGS, é demonstrativo da percepção de inércia que o Poder Central parecia revelar na altura.

“(…) na ausência de decisões supramunicipais que limitem e/ou condicionem de forma efectiva a propagação do vírus e as suas nefastas consequências (…)”, lia-se na declaração da autarquia, que anunciava já as primeiras reduções e isenções de taxas municipais.

Nesse dia -14 de Março-, a DGS confirmava a primeira vítima mortal em Portugal por covid-19, mais de 300 casos confirmados de infecção e mais de 2.900 casos suspeitos. O relatório da situação ainda não indicava os números por concelho.

Preocupado com as restrições à liberdade, e por isso relutante em acompanhar o Presidente da República na declaração do estado de Emergência, António Costa não deve ter ficado muito satisfeito com a ‘desautorização’ de Ricardo Rio, um autarca social-democrata.

Quase simultaneamente, uma outra resolução também saída de Braga cai outra ‘bomba’, agora nas mãos do ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor. Do Largo do Paço, no centro da cidade, a reitoria da Universidade do Minho decreta o encerramento dos campi e põe termo às aulas presenciais.  Desta feita, Costa não esconde a irritação com o ‘confinamento’ da academia minhota e não consegue disfarçar o seu desagrado com a iniciativa do reitor, Rui Vieira de Castro, alegando que estas decisões deviam “ser concertadas” entre todas as universidades.

Ao antecipar-se ao Governo com este inédito ‘horário zero’ e com o ‘confinamento’ universitário, Braga pode ter evitado números maiores daqueles que constavam no boletim da DGS logo que passaram ser indicados os dados concelhios. Mesmo assim, chegou a ser o 5.º concelho mais afectado pelo covid-19.

Maratona anti-covid


A 24 de Outubro, o primeiro-ministro comparou, em jeito de aviso, o combate à pandemia a “uma longa maratona”, sustentando que “é preciso gerir o esforço”, de forma a “ir distribuindo e guardando as medidas para as utilizar nos momentos em que forem estritamente necessárias para evitar o excesso de cansaço”.

É com o mesmo pensamento que a Câmara de Braga encara a segunda vaga da pandemia.

“É preciso conviver como vírus, com esta realidade, e tomar as medidas para minimizar os impactos, tendo em conta que esta realidade poderá ser diferente daqui a uma semana”, diz Ricardo Rio em conversa com o jornalista.

“Temos que ir avaliando os cenários e precaver todas as situações”, refere, frisando, no entanto, que é “defensor de medidas de âmbito local, que respondam a focos de propagação comunitária muito disseminados”.

Um novo ‘horário zero’ não está equacionado.

“Em Braga não se justificam ainda medidas mais gravosas do que aquelas que temos”, sublinha o autarca.

Já Altino Bessa defende que em caso de “um grande agravamento teremos obviamente que tomar medidas que nos defendam, sempre em entendimento e de acordo com a autoridade de saúde local”.

“Não podemos fazer previsões. Temos que estar preparados para tudo. A Câmara de Braga tem internamente, quer ao nível da sua Protecção Civil, quer na área social, sabido encontrar respostas”, diz.

“Há uma lógica de prevenção. Se houver necessidade de agravamento de medidas, elas serão tomadas”, assegura.

O vereador da Protecção Civil reconhece que, por vezes, “navegou-se um pouco à vista”. “Nenhum de nós tem experiência em lidar como uma situação pandémica desta natureza, sobretudo por ser muito dinâmica e que se pode alterar de uma semana para a outra”, desabafa.

Insiste que “o importante é ter consistência nas decisões que se tomarem e ter consciência que se está a fazer tudo o que é necessário para quando formos confrontados com um agravamento da situação não nos faltar a capacidade de resposta necessária”.

Para concretizar as vertentes da estratégia da autarquia – enunciada por Altino Bessa – prevenir, conter e assegurar a protecção aos mais fragilizados-, uma das primeiras decisões foi reactivar estrutura de retaguarda para doentes infectados, mas que já não precisam de internamento e não tenham condições de isolamento em casa no Hotel João Paulo II, no Sameiro, numa partilha de responsabilidades com a delegação da Cruz Vermelha Portuguesa.

Outra foi a transferência para a Casa de Saúde de Bom Jesus, também em pareceria com a Cruz Vermelha, de uma segunda estrutura neste caso para os 25 a 30 sem-abrigo sinalizados no concelho, e que na primeira vaga da pandemia funcionou no pavilhão desportivo de uma escola.

Paralelamente, foi lançada a campanha ‘Braga Fecha a Porta ao Vírus’, uma iniciativa de sensibilização da população que junta o Hospital de Braga, o município, a Universidade do Minho e o ACES Cávado I – Braga. Pretende-se, sobretudo, diz Domingos Sousa, director executivo do ACES, apelar ao cumprimento do distanciamento social e protecção individual com “pequenos gestos”.

Com e época da gripe à porta, e para facilitar a distinção entre os dois vírus, cuja a infecção causa sintomas idênticos, a autarquia ofereceu aos seus 1.600 funcionários a possibilidade de se vacinarem gratuitamente contra a gripe, um investimento de mais de 30 mil euros.

AMANHÃ, SÁBADO, PARTE 2:

‘Mito, loucura e pioneirismo’

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