O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, chegou este domingo à Suíça para participar nas negociações de alto nível com representantes iranianos destinadas a transformar o recente memorando de entendimento entre Washington e Teerão num acordo de paz definitivo.
As conversações decorrem no resort de Bürgenstock, próximo de Lucerna, e centram-se sobretudo no programa nuclear iraniano, considerado o principal dossiê das negociações. O memorando, assinado na passada quarta-feira pelos Presidentes Donald Trump e Masoud Pezeshkian, estabelece um período de 60 dias para que ambas as partes alcancem um entendimento abrangente.
A chegada de Vance ocorre após um atraso de dois dias motivado pelo agravamento da situação de segurança no Médio Oriente. A escalada dos confrontos entre Israel e o Hezbollah no sul do Líbano e a suspensão temporária da participação iraniana obrigaram ao adiamento da deslocação norte-americana.
Os primeiros dias de vigência do acordo de suspensão das hostilidades ficaram marcados por novas operações militares israelitas contra alegadas posições do Hezbollah no Líbano, bem como pelo anúncio de Teerão sobre um alegado encerramento do Estreito de Ormuz, uma das mais importantes rotas marítimas do mundo para o transporte de petróleo e gás natural.
Contudo, o Comando Central dos Estados Unidos garantiu que a navegação na região continua a decorrer sem interrupções significativas. O próprio JD Vance afirmou que milhões de barris de petróleo continuaram a atravessar o estreito nos últimos dias, contrariando as declarações iranianas.
Do lado iraniano, a delegação inclui o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Qalibaf, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, além de responsáveis do Banco Central e do setor energético. A equipa norte-americana integra ainda o enviado especial Steve Witkoff e Jared Kushner, conselheiro próximo da administração Trump, que já se encontravam na Suíça.
As negociações contam também com a presença de representantes do Paquistão, incluindo o primeiro-ministro Shehbaz Sharif e o chefe do Exército, Asim Munir, bem como mediadores do Catar, país que tem desempenhado um papel relevante nos esforços diplomáticos na região.
Programa nuclear e sanções no centro das negociações
O memorando assinado entre Washington e Teerão prevê a flexibilização de várias restrições económicas ao Irão. Entre as medidas acordadas estão a possibilidade de exportação livre de petróleo iraniano e o acesso a milhares de milhões de dólares em ativos atualmente congelados no estrangeiro.
Em contrapartida, Teerão compromete-se a diluir as suas reservas de urânio altamente enriquecido, uma exigência considerada fundamental pelos Estados Unidos e pelos seus aliados para reduzir o risco de proliferação nuclear.
O documento estabelece ainda um regime temporário de livre circulação para navios comerciais no Estreito de Ormuz durante os próximos 60 dias, embora não elimine a possibilidade de futuras taxas de passagem.
Acordo enfrenta obstáculos no terreno
Apesar do avanço diplomático, a implementação do memorando continua envolta em incertezas. Nem Israel nem o Hezbollah figuram entre os signatários do documento, o que limita o alcance imediato do entendimento.
O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, reiterou que as forças israelitas permanecerão no sul do Líbano até que todas as ameaças à segurança de Israel sejam neutralizadas. Por sua vez, o Hezbollah mantém a posição de que não cessará os ataques enquanto Israel não retirar as suas tropas do território libanês.
Segundo dados divulgados pelas autoridades locais, os confrontos registados desde a assinatura do memorando provocaram pelo menos 47 mortos no Líbano e causaram a morte de quatro militares israelitas, evidenciando a fragilidade do processo diplomático agora iniciado na Suíça.
JD Vance deverá permanecer em Bürgenstock apenas durante um curto período, entre um e dois dias, deixando a condução técnica das negociações sobretudo a cargo de Steve Witkoff e Jared Kushner. Ainda assim, a sua presença é vista como um sinal do empenho da administração norte-americana em alcançar um acordo que possa reduzir as tensões no Médio Oriente e evitar uma nova escalada regional.



