Opinião. Nova lotaria do lixo: 13,8 milhões andam à roda

Opinião de Samuel Estrada
Presidente da Junta de Freguesia de Atiães

A saga da recolha de resíduos sólidos urbanos, nome técnico e higiénico usado para falar do lixo, transformou-se, em Vila Verde, num pesadelo municipal que nos aflige há anos e que parece não ter fim à vista.

Até 2014, a recolha do lixo era assegurada, mais ou menos sem sobressaltos, pelo próprio município. Nesse ano, o serviço foi privatizado, com a entrada do consórcio privado ECOREDE/Rede Ambiente, num contrato marcado por atrasos, incidentes, reequilíbrios financeiros e muitos, muitos incumprimentos.

Continuam na memória de muitos, pelo menos daqueles que não se deixam distrair com a festa e o cavaquinho do líder espiritual do regime, o atraso na colocação dos contentores subterrâneos, o exercício de funções num armazém de lenha, a contaminação de águas subterrâneas e as imagens grotescas de lixo amontoado nos pontos de recolha, que marcavam, ano após ano, a paisagem vila-verdense durante o estio.

Tudo decorreu com a bênção e proteção do município, sem reparos, sem sanções e até sem críticas, que ficaram reservadas à suposta falta de civismo dos vila-verdenses.

O município, sem qualquer capacidade de autocrítica e de aprendizagem com os erros, e foram tantos, resolveu apostar no mesmo modelo, à procura de soluções diferentes.

Assim, em 2025, o feliz contemplado do concurso do lixo foi a Luságua, que nos garantiu a manutenção da incapacidade de assegurar uma recolha eficaz durante o verão, bem como a permanência de amontoados de lixo em doses industriais por todo o concelho. A paisagem transformou-se numa espécie de quadro abstrato, mas com mau cheiro, tudo isto perante a absoluta indiferença da presidente da Câmara, que tem, certamente, mais do que fazer.

A Luságua, contudo, nunca caiu nas graças do regime e acabou por durar menos de um ano. Ainda assim, a culpa morreu solteira, como é, aliás, tradição nesta terra onde cantam os pardais.

A somar a estes infortúnios, males maiores continuam condenados ao esquecimento. Vila Verde continua a registar aumentos galopantes na produção de lixo indiferenciado, revelando números muito pobres na capacidade de reciclar e de reutilizar resíduos orgânicos, mesmo sendo um território eminentemente rural, onde essa capacidade deveria ser natural.

Sobre isto, nem uma palavra do município, que nunca apostou verdadeiramente em campanhas de sensibilização com a comunidade e com as juntas de freguesia, nem desenvolveu planos capazes de incentivar a alteração da ordem das coisas.

Esta sucessão de erros deveria convocar uma reflexão cuidada e profunda, colocando todas as hipóteses possíveis para este serviço em perspetiva, incluindo o regresso à municipalização, cujo estudo ou consideração continuam a ser veementemente recusados.

Em mais um estudo económico encomendado pelo município, esta hipótese voltou, mais uma vez, a não ser considerada. Porquê?

Quando olhamos para os 14 municípios do distrito, vemos que nove, muitos deles liderados por executivos sociais-democratas, mantêm o serviço municipalizado ou entregue a empresas municipais. Braga, Barcelos, Guimarães, Terras de Bouro, Celorico de Basto, Cabeceiras de Basto, Póvoa de Lanhoso, Vieira do Minho e Vizela são exemplos disso, sem que sejam conhecidos males como os que sobre nós se têm abatido.

Mas Vila Verde continua, teimosamente, a recusar sequer estudar essa hipótese, precipitando-se constantemente para o mesmo modelo contratual. Porque será? Por convicção? Por desinteresse? Por complexo ideológico? Por amor aos privados? Por desdém pelo interesse público?

Olhando, ainda assim, para o modelo contratual proposto pelo município, outras opções geram espanto e preocupação. Desde logo, a proposta de um contrato com a duração de 10 anos, comprometendo quase três mandatos. Percebe-se que nada se aprendeu com o passado. Quando olhamos em retrospetiva, percebemos que as formas de execução do contrato rapidamente se tornam descontinuadas e ineficazes perante as mutações do território, da demografia e de um mundo cada vez mais instável.

Foi essa uma das causas que tornou o contrato de 2014 tão ineficaz. Não seria mais razoável um acordo de quatro anos, que permitisse revisitar e adaptar o caderno de encargos às necessidades do tempo?

Com apenas um ano de diferença, comparativamente a 2025, este contrato apresenta muitas alterações: rotas, número de equipas e preço base, que passou de 11,1 milhões para 13,8 milhões de euros. Se tudo muda assim num ano, não será temerário vincular o concelho a este modelo durante dez longos anos? Terá este executivo o direito de agrilhoar os futuros eleitos com as suas decisões sem uma justificação robusta?

Percebemos que este prazo fará sentido para os privados. Mas que sentido terá à luz do interesse municipal, que é o que mais nos importa?

Será que o problema do lixo se resolverá apenas com os milhões que esbanjamos, sem critério, num serviço de recolha?

Esta decisão expõe, uma vez mais, os sintomas do desgaste deste executivo e da erosão que o tempo provoca no poder. Este executivo faz da teimosia um modo de governar, com a leviandade de quem vê o município como uma extensão dos seus quintais.

Esta decisão, não tendo sido precedida de um estudo e de um debate sério e alargado, revela-se, novamente, uma aposta como se de um jogo de fortuna ou azar se tratasse.

E a história mostra-nos que, neste jogo, o azar calha sempre aos vila-verdenses, com a sorte sempre reservada para os privados.

Boa sorte.

Jornal O Desportivo

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