As comemorações dos 52 anos do Revolução de 25 de Abril de 1974 ficaram este ano marcadas por discursos políticos centrados na defesa da democracia, na transparência das instituições e nos desafios sociais que persistem em Portugal. Várias figuras institucionais e líderes partidários deixaram alertas e críticas, com enfoques distintos sobre o estado do país e o futuro da liberdade.
António José Seguro: “A liberdade não desaparece de uma só vez”
O Presidente da República alertou para os riscos de erosão gradual da democracia, sublinhando que “a liberdade não desaparece de uma só vez, desaparece aos poucos”. Segundo afirmou, ameaças contemporâneas podem surgir de forma subtil, através de leis aparentemente inofensivas, do enfraquecimento institucional ou até da influência de algoritmos.
Seguro destacou ainda o combate à corrupção como prioridade, considerando que esta “mina os alicerces do Estado de Direito”. Apontou igualmente a pobreza como fator limitador da liberdade individual e criticou desigualdades salariais de género.
Dirigindo-se aos jovens, reconheceu dificuldades crescentes no acesso à habitação e na estabilidade profissional, defendendo maior investimento na saúde, em particular na saúde mental. Sobre o financiamento partidário, insistiu na necessidade de transparência, afirmando que “os cidadãos têm o direito de saber” como são financiadas as forças políticas.
José Pedro Aguiar-Branco: crítica à exposição da vida política
O presidente da Assembleia da República criticou a forma como a política tem sido tratada, alertando para uma excessiva exposição da vida privada dos políticos, que transforma o espaço público num “reality show”.
Aguiar-Branco apontou também falhas no regime de incompatibilidades, defendendo que este pode afastar profissionais qualificados da vida política. Considerou ainda existir uma “presunção de culpabilidade” sobre os titulares de cargos públicos e apelou à abertura da política a novos perfis.
Hugo Soares: apelo à moderação e crítica aos extremos
O líder parlamentar do PSD defendeu que “Abril é de Portugal” e não de correntes ideológicas específicas. Alertou para o aumento da divisão política, criticando uma esquerda “cada vez mais preconceituosa” e uma direita “cada vez mais radicalizada”.
Sublinhou que a coragem política atual passa por enfrentar extremismos e reforçar a moderação como valor central da democracia.
André Ventura: críticas às comemorações e foco nas desigualdades
O líder do Chega criticou os gastos associados às celebrações do 25 de Abril, contrapondo-os com dificuldades sociais, nomeadamente as baixas pensões e o acesso à saúde.
Ventura defendeu que os portugueses “querem ter voz” e apontou o surgimento de uma “nova classe de silenciados”, centrando o discurso em temas como imigração, segurança e justiça social.
José Luís Carneiro: “A liberdade, sem uma vida decente, é incompleta”
O secretário-geral do PS destacou o impacto histórico da revolução como momento de libertação coletiva, mas alertou para desigualdades persistentes. Defendeu respostas para problemas como o custo de vida, habitação e saúde.
Para Carneiro, a liberdade só é plena quando acompanhada por condições de vida dignas.
Mariana Leitão: crítica à estagnação e defesa de mudança
A líder da Iniciativa Liberal apontou décadas de estagnação económica, defendendo que muitos portugueses continuam a procurar soluções fora do país ou no setor privado.
Considerou que o espírito de Abril implica mudança e não imobilismo, criticando discursos que, em nome da revolução, impedem reformas.
Rui Tavares: memória histórica e defesa do 25 de Abril
O porta-voz do Livre recordou as origens violentas da ditadura e criticou decisões governamentais relativas à memória da revolução, defendendo maior centralidade simbólica para o 25 de Abril.
Alfredo Maia: críticas às políticas laborais
O deputado do PCP evocou a repressão do regime anterior e criticou medidas atuais que, na sua perspetiva, representam retrocessos nos direitos dos trabalhadores, nomeadamente no plano laboral.
João Almeida: “Abril não tem donos”
O deputado do CDS-PP defendeu que a revolução pertence ao povo e não a grupos específicos, criticando tentativas históricas de controlo ideológico do processo democrático.
Fabian Figueiredo: defesa do pluralismo democrático
O deputado do Bloco de Esquerda considerou o período pós-25 de Abril como o melhor da história do país, alertando, no entanto, para a degradação do debate político e para os riscos do populismo.
Inês Sousa Real: “Ainda não estamos a cumprir Abril”
A líder do PAN sublinhou que persistem falhas nas áreas da habitação, salários e ambiente, defendendo que o país ainda não concretizou plenamente os valores da revolução.
Filipe Sousa: apelo ao respeito no debate democrático
O deputado do JPP destacou a importância da liberdade como construção contínua, defendendo que a democracia deve assentar no respeito, na escuta e na empatia, rejeitando a polarização e o discurso de ódio.
Num ano em que se assinalam mais de cinco décadas desde a revolução, os discursos evidenciaram preocupações comuns quanto à qualidade da democracia, apesar das divergências ideológicas. Entre alertas sobre corrupção, desigualdades e radicalização política, ficou patente a necessidade de reforçar a confiança nas instituições e garantir que os valores de Abril continuam a ser concretizados no presente.



