Trágica explosão em fábrica de Barbudo que matou três trabalhadores chega aos tribunais

O Tribunal do Trabalho de Braga agendou para esta quarta-feira, o início do julgamento da ação relacionada com a morte de três trabalhadores na Fábrica de Tecidos da Senra, em Barbudo, concelho de Vila Verde, vítimas de uma explosão ocorrida a 14 de agosto de 2023.

O processo chega agora a tribunal quase três anos após o acidente, na ausência de acordo entre a seguradora, a entidade patronal e as famílias das vítimas, cabendo ao tribunal decidir sobre eventuais indemnizações e apurar responsabilidades.

A explosão ocorreu ao final da tarde, quando a unidade industrial já não se encontrava em laboração, atingindo três trabalhadores que permaneciam no interior da fábrica. O alerta foi dado às 17h43, mobilizando 65 operacionais e 24 viaturas.

As vítimas — Adelino Oliveira, de 60 anos, António Silva, de 30, e José Martins, de 45 — eram naturais e residentes no concelho de Vila Verde. O acidente terá tido origem na explosão de um quadro elétrico, segundo os dados conhecidos do processo.

Durante o julgamento, a empresa rejeita responsabilidades, alegando cumprimento das normas de segurança e defendendo que os trabalhadores estariam no local por iniciativa própria e sem autorização. Esta versão é contestada pelas famílias, que afirmam que os trabalhadores desempenhavam funções ligadas à manutenção da unidade, prática que consideram habitual na empresa.

Empresa rejeita responsabilidades

Relatórios da Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) e da Entidade Nacional para o Setor Energético (ENSE) apontam, no entanto, várias falhas na organização da segurança, incluindo ausência de formação adequada, deficiências na avaliação de riscos, falta de coordenação de segurança e acesso não controlado a zonas técnicas.

Os documentos referem ainda que trabalhadores não qualificados executavam tarefas em instalações elétricas e que os equipamentos de proteção não seriam adequados ao tipo de intervenção em causa.

Com o início do julgamento, o Tribunal do Trabalho de Braga irá agora ouvir testemunhas e analisar a prova técnica para determinar se houve incumprimento das obrigações de segurança e eventual responsabilidade da entidade empregadora.

Família de Adelino Oliveira exige justiça: “O meu pai deu a vida pela empresa”

No arranque do julgamento no Tribunal do Trabalho de Braga, os familiares de Adelino Oliveira, uma das três vítimas da explosão na Fábrica de Tecidos da Senra, acusam a empresa de descurar a segurança no trabalho e lamentam a ausência de qualquer contacto ou pedido de desculpas desde a tragédia ocorrida em agosto de 2023. “O meu pai deu a vida pela empresa”, realçou José Pedro Oliveira, filho de uma das vítimas, em declarações ao jornal ‘O Vilaverdense’.

Segundo o familiar, a empresa sustenta que existia sinalização de segurança e que os trabalhadores se encontravam a desempenhar funções fora das suas competências, uma versão que contesta.

“O meu pai era encarregado-geral e trabalhava ali há mais de 40 anos. Era perfeitamente normal ser ele a resolver este tipo de problemas. Muitas vezes, a empresa optava por não chamar técnicos especializados para poupar custos e era o meu pai quem acabava por fazer esse trabalho”, disse.

José Pedro Oliveira acredita que o julgamento permitirá ouvir testemunhos de antigos e atuais trabalhadores que, segundo afirma, confirmarão que essa prática era habitual na empresa.

“Nunca recebemos uma palavra da empresa”

Além da discussão sobre as responsabilidades pelo acidente, a família lamenta a forma como foi tratada pela entidade patronal desde a tragédia.

Segundo José Pedro Oliveira, decorridos quase três anos, a família não recebeu qualquer indemnização e continua sem conseguir encerrar emocionalmente um dos momentos mais difíceis das suas vidas.

“São quase três anos sem qualquer desenvolvimento. Estamos constantemente a reviver tudo isto. Queremos apenas que as responsabilidades sejam apuradas e que este processo possa finalmente ficar encerrado”, afirmou.

O filho de Adelino Oliveira sublinha ainda que, apesar de o pai ter dedicado mais de quatro décadas à empresa, nunca houve qualquer gesto de proximidade por parte da administração.

Também Maria José Gomes, viúva de Adelino Oliveira, acompanha o julgamento na esperança de que a decisão judicial permita fazer justiça à memória do marido.

A família admite que o impacto da perda continua a fazer-se sentir, tanto no plano emocional como financeiro, recordando que Adelino Oliveira era um dos principais pilares do agregado familiar.

José Pedro Oliveira reconhece que nenhuma decisão judicial devolverá a vida às vítimas, mas considera essencial que o tribunal esclareça o que aconteceu naquela tarde de 14 de agosto de 2023.

DETALHES / GRANDE REPORTAGEM NA EDIÇÃO IMPRESSA DE JULHO DO JORNAL ‘O VILAVERDENSE’   

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