As cesarianas programadas estão a aumentar de forma expressiva em Portugal, uma tendência que está a preocupar especialistas em obstetrícia, que defendem uma utilização criteriosa deste tipo de intervenção cirúrgica.
Os dados recolhidos junto de unidades hospitalares indicam que, no último ano, o número de cesarianas previamente agendadas foi cerca de quatro vezes superior ao registado no ano anterior, representando uma subida particularmente acentuada nas cirurgias que não resultam de situações urgentes.
Ao contrário das cesarianas de emergência, realizadas perante riscos imediatos para a vida da grávida ou do bebé, as cesarianas programadas são planeadas antecipadamente e podem estar relacionadas com diferentes fatores clínicos, mas também com decisões de organização dos serviços.
Em algumas unidades hospitalares, a percentagem de cesarianas programadas passou de cerca de 10% em 2024 para 55,3% em 2025. No Serviço Nacional de Saúde (SNS), embora a subida tenha sido menos acentuada, verificou-se também um aumento, de aproximadamente 10% para 28,7% no mesmo período.
Médicos alertam para riscos do procedimento
Os especialistas recordam que a cesariana é uma intervenção fundamental quando está indicada, podendo salvar vidas em determinadas situações, mas sublinham que não deve ser encarada como uma alternativa sem riscos.
Entre os possíveis riscos associados estão complicações cirúrgicas, infeções, recuperação mais prolongada e implicações em futuras gravidezes.
A recomendação dos profissionais de saúde é que a decisão seja sempre baseada em critérios clínicos e numa avaliação individualizada da situação da grávida e do bebé.
Consentimento informado em debate
A legislação portuguesa prevê que qualquer intervenção médica deve ser realizada com base no consentimento informado da utente, incluindo no caso das cesarianas.
Contudo, especialistas questionam se o aumento das cesarianas programadas poderá estar também relacionado com constrangimentos organizacionais nos serviços de obstetrícia, nomeadamente numa fase marcada por dificuldades de funcionamento em algumas unidades hospitalares, com falta de profissionais e encerramentos temporários.
O crescimento deste tipo de cirurgia abre, assim, um debate sobre a qualidade dos cuidados obstétricos prestados no país e sobre o equilíbrio entre a autonomia das grávidas, as necessidades dos serviços e as recomendações clínicas internacionais.



