Portugal presta esta quinta-feira a última homenagem a Luís Represas, uma das figuras mais marcantes da música portuguesa das últimas cinco décadas. O velório do cantor e compositor decorre na Basílica da Estrela, em Lisboa, entre as 16h00 e as 22h30, permitindo a despedida pública de familiares, amigos, colegas de profissão e admiradores. O funeral realiza-se na sexta-feira.
Luís Represas morreu na quarta-feira, aos 69 anos, na sequência de uma doença prolongada, conforme confirmou a agência que o representava. A notícia provocou uma profunda onda de consternação no meio artístico, cultural e político, multiplicando-se as mensagens de pesar e de reconhecimento pelo contributo do músico para a cultura portuguesa. Nas redes sociais, a equipa do artista deixou uma breve mensagem de despedida: “Muito obrigado! Até sempre!”
Entretanto, foi também conhecida a causa da morte. Segundo a revista Blitz, o cantor enfrentava um cancro do pulmão em estado avançado e preparava-se para iniciar um tratamento inovador no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. De acordo com a mesma publicação, tinha sido encaminhado para o START, unidade especializada em ensaios clínicos na área da oncologia, integrada num dos maiores consórcios internacionais dedicados ao desenvolvimento de novos tratamentos contra o cancro. A doença encontrava-se já numa fase avançada, com metástases identificadas, circunstância que motivou a procura de novas abordagens terapêuticas. Apesar do diagnóstico, Luís Represas optou por manter o seu estado de saúde no âmbito da esfera privada.
A morte do músico ocorre precisamente no ano em que assinalava 50 anos de carreira. Em março, voltou aos palcos com os Trovante para uma série de concertos nos Coliseus de Lisboa e do Porto, que reuniram milhares de espectadores e celebraram meio século de um percurso artístico ímpar.
Numa entrevista concedida este ano ao programa “A Escuta do Mundo”, da TSF, Luís Represas recordou o nascimento dos Trovante durante o verão de 1976, em Sagres, descrevendo um grupo de jovens que passava as férias em tendas junto à praia, tocando guitarra noite dentro, até perceber que existia “alguma coisa em comum, musicalmente”. Noutra conversa com a estação de rádio, sintetizou a identidade da formação que marcou várias gerações de portugueses: “O Trovante não é uma banda, é um grupo.”
Nascido em Lisboa, em 1956, Luís Represas tornou-se conhecido como vocalista dos Trovante, banda que revolucionou a música portuguesa ao fundir sonoridades tradicionais com influências contemporâneas. Entre os álbuns mais emblemáticos da formação destacam-se Baile no Bosque (1981) e Cais das Colinas (1983). Após a separação do grupo, no início da década de 1990, iniciou uma bem-sucedida carreira a solo, regressando pontualmente aos Trovante em momentos especiais, nomeadamente em 1999, 2006, 2017 e, mais recentemente, em 2026.
Em 1993 lançou o primeiro álbum a solo, “Represas”, gravado em Cuba, de onde nasceram alguns dos seus maiores êxitos, como “Fora de Tempo”, “Neva sobre a Marginal” e “Feiticeira”. O seu trabalho discográfico mais recente, “Miragem”, foi editado em 2024.
Ao longo da carreira, colaborou com alguns dos maiores nomes da música portuguesa e internacional, entre os quais Fausto Bordalo Dias, José Afonso, Carlos do Carmo, Bernardo Sassetti, Jorge Palma, Pablo Milanés, Ivan Lins, Martinho da Vila, Simone, Phil Collins, Compay Segundo, Gilberto Gil e Carlinhos Brown.
O seu percurso ficou igualmente ligado à causa da independência de Timor-Leste. A canção “Timor”, integrada no álbum Um destes Dias (1990), transformou-se num dos símbolos da resistência timorense, sendo posteriormente traduzida para tétum por Xanana Gusmão. Em reconhecimento pelo seu apoio à causa timorense, recebeu, em 2016, a Medalha da Ordem de Timor-Leste, atribuída pelo então Presidente Taur Matan Ruak. Já em Portugal, foi distinguido, em 2005, com a Ordem do Mérito, no grau de Comendador.
O velório que hoje decorre na Basílica da Estrela deverá reunir numerosas figuras da cultura, da política e da sociedade portuguesa, bem como centenas de admiradores que desejam prestar a última homenagem a um artista cuja voz e obra marcaram profundamente várias gerações.
Com uma carreira de cinco décadas, Luís Represas deixa um legado incontornável na música portuguesa, marcado por canções que atravessaram gerações e continuam a ocupar um lugar de destaque na memória coletiva e no património cultural do país.



