Portugal prepara-se para enfrentar, a partir desta terça-feira, um episódio de calor extremo que o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) considera “inédito”, devido à intensidade, duração e abrangência territorial do fenómeno.
As previsões apontam para temperaturas superiores a 35 graus em praticamente todo o território continental, com os termómetros a aproximarem-se dos 40 graus em várias regiões, incluindo Lisboa, Braga, Alentejo e Ribatejo. O episódio deverá prolongar-se até meados da próxima semana.
Segundo Jorge Ponte, chefe da Divisão de Previsão Meteorológica do IPMA, o caráter excecional desta onda de calor reside sobretudo na persistência de temperaturas muito elevadas durante vários dias consecutivos.
“A grande novidade será a persistência de tão elevadas temperaturas durante um período tão longo, sobretudo em regiões como as de Lisboa, do Alentejo e do Ribatejo, o que nunca se havia verificado de forma tão vincada”, afirmou o responsável.
O meteorologista sublinha ainda que, ao contrário de episódios anteriores, o calor intenso deverá atingir praticamente todo o país.
“Não haverá qualquer zona que, à partida, possa escapar.”
Noites tropicais agravam riscos
Além das temperaturas máximas excecionalmente elevadas, o IPMA alerta para um fenómeno menos habitual: as temperaturas mínimas deverão rondar os 25 graus em várias regiões durante vários dias consecutivos, impedindo o arrefecimento noturno.
Esta situação aumenta significativamente os riscos para a saúde pública, sobretudo entre idosos, crianças, doentes crónicos e trabalhadores expostos ao calor durante longos períodos.
O episódio resulta da combinação entre uma massa de ar quente proveniente do Norte de África, que já tem afetado vários países europeus, e a atual configuração atmosférica sobre a Península Ibérica, influenciada pelo anticiclone dos Açores e por uma depressão localizada junto ao Golfo da Biscaia.
Governo admite impacto na mortalidade
Face às previsões, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, reconheceu que a onda de calor poderá ter consequências ao nível da mortalidade.
“Quando existem ondas de calor com esta magnitude, o nosso indicador obviamente que acusa a possibilidade de um impacto na mortalidade, tal como está a acontecer noutros países”, afirmou a governante.
A ministra referia-se ao indicador Ícaro, utilizado para monitorizar os efeitos das temperaturas extremas na saúde pública, classificando a situação prevista para Portugal como “muito, muito preocupante”.
Apesar do reforço dos planos de contingência nas Unidades Locais de Saúde, Ana Paula Martins apelou à utilização responsável dos serviços de urgência e ao cumprimento das recomendações das autoridades de saúde.
DGS reforça medidas de prevenção
Perante o agravamento das condições meteorológicas, a Direção-Geral da Saúde recomenda que os trabalhos fisicamente mais exigentes sejam realizados nas horas de menor calor, privilegiando o início da manhã e o final da tarde.
A autoridade de saúde aconselha ainda pausas frequentes, hidratação regular — idealmente com ingestão de água a cada 15 a 20 minutos — e a utilização de sistemas de ventilação ou ar condicionado sempre que possível.
A DGS alerta igualmente para os principais sinais de doenças relacionadas com o calor, como confusão mental, temperatura corporal elevada, transpiração excessiva, convulsões, tonturas, náuseas, desmaios e cãibras, recomendando assistência médica imediata perante sintomas de insolação.
Calor aumenta risco de incêndios e pode pressionar rede elétrica
As temperaturas elevadas deverão também agravar o risco de incêndio rural. Vários concelhos dos distritos de Castelo Branco, Faro e Portalegre já estiveram sob risco máximo de incêndio, num cenário que poderá alargar-se nos próximos dias caso o calor persista.
Paralelamente, especialistas alertam para uma maior pressão sobre a rede elétrica, devido ao aumento do consumo associado aos sistemas de climatização.
Segundo Nuno Amaro, professor da Universidade Nova de Lisboa – NOVA FCT e especialista na área da energia, o cenário mais provável passa pela ocorrência de constrangimentos localizados na distribuição elétrica, embora admita que um apagão generalizado, apesar de pouco provável, não possa ser totalmente excluído.
Mais ondas de calor em Portugal
De acordo com a definição do IPMA, uma onda de calor verifica-se quando, durante pelo menos seis dias consecutivos, a temperatura máxima diária supera em cinco graus Celsius o valor médio das temperaturas máximas desse período do ano.
Os registos climatológicos mostram que estes fenómenos têm vindo a tornar-se mais frequentes nas últimas décadas em Portugal Continental. Desde 2000, os anos de 2013, 2006, 2003, 2018 e 2022 destacaram-se pelo elevado número de estações meteorológicas afetadas por ondas de calor.
Segundo os dados mais recentes do instituto, 2026 já contabilizou cinco ondas de calor, num total de 59 dias, confirmando uma tendência de aumento da frequência e duração dos episódios de calor extremo no país.



