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Portugal, o racismo, a polícia e as manifestações

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Tenho a sensação de que vivemos um período da nossa história em que o tempo de antena é cada vez mais dominado por discursos radicais que pensam o mundo a preto e branco, sem meios-termos e que se alimenta de uma visão bipartida da realidade. Uma ideologia de extremos, que só pode ser de esquerda ou de direita, não tem centro,  consubstancia-se na crença de que o meu pensamento é melhor do que o teu, está acima de todos e é o único possível. Estas duas mundividências não singram uma sem a outra, vivem numa dicotomia tal que cada uma das partes, ao não se tolerar, monta o palco para a outra. Cada uma dessas partes está tão extremada que nem os moderados são vistos como moderados. E é, neste contexto de discursos, que surgem manifestações e contramanifestações que a era digital, que atravessamos, dá ainda maior expressão, servindo de caldo de cultura perfeito para propagar a radicalidade das mensagens. São manifestações que partilham tarjas e frases que se antagonizam, gerando divisão na sociedade, acicatando ânimos, extremando discursos e posições e alimentando o ódio entre seres humanos. E há, infelizmente, partidos políticos a embarcar neste jogo de claques que fragmenta e nada constrói.

​Tem-se debatido na sociedade portuguesa se somos ou não um país racista. É difícil dar resposta a uma pergunta que nos impele a adjetivar um país inteiro como se todos pensássemos da mesma maneira. O racismo não é, para mim, um problema estrutural em Portugal. Acontece pontual e circunstancialmente. Não somos racistas, de todo. Se o fôssemos, Eusébio não estaria no Panteão Nacional, nem o Éder seria convocado para marcar o derradeiro golo que nos deu o título de Campeões da Europa. Vibramos com estes dois portugueses e nada nos importaram as suas origens ou a cor da pele. Isso nem é assunto.

Sou contra o racismo, porém, sabendo-se que vivemos um período que nos apela ao recato e ao distanciamento social, terá sido a manifestação de 6 de junho oportuna? Não me parece. Mas, pior do que isso, foi trazer a reboque uma mensagem a apelar ao sentimento de intolerância e ódio para com os nossos polícias. As nossas forças de segurança precisam de ser acarinhadas e defendidas pela sociedade e não enxovalhadas. Por norma, o uso da força por parte de um profissional da polícia é quase sempre mal visto pela generalidade das pessoas. Mesmo que seja reativo, justificado e necessário para a reposição da ordem. Jordan B. Peterson, em 12 Regras para a Vida, escreve que “As pessoas precisam de princípios ordenadores, caso contrário surge o caos. Precisamos de regras, padrões, valores – individualmente e em conjunto. Isso é ordem.” Ora, quem nos garante a ordem em sociedade em detrimento do caos se não as nossas forças de segurança? Ressalvo que o mesmo autor diz, também, que “a ordem pode tornar-se excessiva e isso não é bom; e o caos pode inundar-nos e assim afogamo-nos – e isso também não é bom.” Por isso, é no meio-termo que gosto de me posicionar. “No meio é que está a virtude”. O ditado é velho, mas é sempre atual.

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