Opinião de Luís Sousa
Já foi tempo em que o feed de publicações nas redes sociais se enquadrava em conteúdo que, até certo ponto, era controlado por nós, utilizadores. As publicações que nos surgiam eram de grupos a que aderíamos, de amigos e conhecidos com quem nos conectávamos e de empresas e meios de comunicação social nos quais o nosso clique constituía uma espécie de autorização para que connosco fosse legitimamente partilhado determinado conteúdo.
Hoje o “feed é outro”! O infinite scroll conduz-nos a um conjunto de publicações sem fim, numa sequência que nos prende a atenção e que está, friamente, programada para maximizar a interação com o utilizador. Os vídeos surgem em autoplay, numa rolagem contínua em que o seguinte começa imediatamente após o anterior, sem tempo nem espaço para pausas que nos possam desviar a atenção. E isto é aditivo.
Há algo de prazeroso nisto onde a libertação de dopamina a cada movimento de scrolling tem uma palavra a dizer. A mesma dopamina que vicia o fumador ou o adicto no jogo patológico. E que fácil é perdermos horas seguidas a dar uso ao polegar para fazer rolar este feed. Nesta matéria, o algoritmo não perdoa. É ele que nos prende ao ecrã, levando-nos a gastar mais tempo do que o desejável nas redes sociais. São imensos cálculos matemáticos, muita informática e imensa informação a ajudar o algoritmo a escolher o que nos quer apresentar. É como um fato à medida.
Ele escolhe-nos as fotos, os vídeos, as mensagens e as notícias que nós vamos ver. Depois, estuda a nossa interação, os nossos cliques, os nossos gostos, as nossas partilhas, o tempo que perdemos e aprende a dar-nos o que mais nos interessa. O algoritmo aprende rápido e de forma contínua. É impressionante! Ele, de facto, está construído para aumentar o nosso tempo de interação. Ele vive da nossa atenção, de cliques e partilhas. Por isso, nem sempre é ponderado nas escolhas que nos apresenta. Privilegia a emoção, o vídeo que conduz à indignação, muitas vezes à raiva, ao medo, ao ressentimento.
Esses são os que captam mais a atenção. O algoritmo já percebeu qual é a informação que mais vende e a que mais prende os utilizadores. Ele mostra-nos o que mais repulsa, nem que para isso seja necessário sacrificar a verdade dos factos. E com isto, o algoritmo é cada vez mais pródigo a mostrar-nos as mentiras ou as meias-verdades, os vídeos truncados que só nos contam uma parte da história ou as imagens verídicas que, descontextualizadas, nos levam a acreditar numa mentira.
Este algoritmo que, apesar de tudo, também tem as suas virtudes, trouxe consigo uma espécie de desconfiança permanente que nos leva a pôr em causa muito do que vemos no digital. É também o algoritmo que nos leva a viver numa espécie de bolhas onde as informações num determinado sentido de opinião tendem a tornar-se dominantes na nossa esfera digital, conduzindo a um cada vez maior distanciamento entre as pessoas. Já acabou o tempo em que todos víamos os mesmos programas de televisão, as mesmas séries e líamos as mesmas notícias.
Não quero com isto dizer que a diversidade de hoje é nefasta. De todo! Mas temos de reconhecer que, com isto, perdemos muitas das referências comuns que alimentavam conversas e sustentavam elos de conexão entre cada um de nós. Cada qual vive numa espécie de mundo virtual individual onde as pontes viraram trincheiras de opinião e o debate deu lugar ao insulto e à intolerância pela forma como os outros pensam.
Parece-me que temos cada vez menos um chão em comum. Tenho até a sensação de que, nos dias de hoje, a pergunta “Como é possível pensares assim?” se tornou banal. Talvez a culpa seja, em parte, do maldito do algoritmo!



